O título foi sugerido por um leitor que encontrei na descida da padaria. Acabávamos de sair de uma noite em que o céu quase veio baixo, em Bauru. A velha goteira que me persegue há mais de trinta anos, reapareceu em casa. Notícias se espalharam pelo WattsApp, dando conta de tetos que desabaram, buracos nas ruas e árvores caídas. Foto do prefeito Gazzetta foram postadas, molhado como um pinto, mas solidário com os flagelados. A cidade mergulhara nas trevas. Pela manhã, o Sol parecia rir da gente. Voltou a brilhar com a intensidade que o verão requer, enquanto a população fazia o balanço dos prejuízos. Até o arco-íris surgiu, escrachado. Abandonou a seriedade que o símbolo da Nova Era deve ter. "Toda vez que o arco-íris estiver nas nuvens, olharei para ele e me lembrarei da aliança eterna ente Deus e todos os seres vivos de todas as espécies que vivem na terra". Está no Gênesis (9,16). Só não entendi a razão de tanto som e fúria.
E o mundo não se acabou, como na letra do samba de Assis Valente, cantado por Carmen Miranda (1938). A protagonista da história, acreditou na conversa mole, beijou a boca de quem não devia, perdoou ingratidões em meio a trovões e relâmpagos. E, no fim... a vida continuou.
O ano de 2018 está terminando. No sufoco. O premiê israelense Benjamin Netanyahu vem ao Brasil para irmanar-se a Jair Bolsonaro, novo aliado no eterno conflito entre Israel e a Palestina. Ele disse que a Palestina era a Terra Prometida e o Brasil, a Terra da Promessa. A declaração só não foi considerada irônica porque todos nós sabemos da sua falta de informações do que acontece nas campanhas eleitorais, aqui no Brasil. Promessas fazem parte da nossa cultura. Prometemos até para nos mesmo, a cada virada de ano. Esqueça aquelas 35 providências que fará "virar sua vida do avesso", como na lista ridicularizada por Machado de Assis. Modernamente, existem formulas que fará com que você emagreça dormindo. Deixe de lado as centenas de dicas para enlouquecer seu parceiro na cama. Esqueça o passo a passo para enriquecer até 2020, ou a busca pelo segredo da cura da síndrome do pânico e da depressão.
Às vésperas do réveillon do ano passado, um colega confidenciou ter se comprometido a contar à mãe que é gay. Quis a minha opinião. Ela, provavelmente já sabe há muito tempo. Sensibilidade que só as mães têm e sabem entender. Esse tipo de confissão pode ser útil, não fossem os abalos nas relações familiares que isso também pode provocar. Imagine alguém que, premido pela consciência, resolva contar que transa com o marido da melhor amiga. Para quê? Pôr em risco a velha amizade e estragar o segredinho? O amor proibido é muito mais excitante e responsável - diria meu amigo João Bidu. Com razão. Nesse tipo de relacionamento são jogadas todas as fichas. A possiblidade de que haja um ganhador, é praticamente nula.
Deveríamos, sim, prometer destruir qualquer regra do politicamente correto, no ano que vem. Fazer mais humor com esse desejo universal de buscar soluções mágicas. Recorro à literatura. É o oposto disso tudo, não vem para trazer respostas, mas para tornar o pensamento ainda mais complexo. O escritor israelense Amós Oz, que morreu na semana, tinha uma solução para esse problema de abertura de embaixada em Jerusalém, prometido por Bolsonaro. Os países que querem ficar bem com os dois lados do conflito, que também abram suas representações diplomáticas com a Palestina, na Jerusalém-Leste - disse numa entrevista. Foi considerado traidor, pelos judeus, e execrado pelo Hamas.
"Nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar" (Einstein). O tempo não passa; nós é que passamos por ele. O tempo é o mais igualitário dos recursos: uma hora é igual para pobres e ricos, cultos e ignorantes, incréus e crentes. O tempo é natural. Contá-lo, não. A finitude é humana; e o tempo não. Amanhã, ou mais um pouquinho adiante, a derrocada virá. Indiferente a essa tragédia humana, o sol continuará a nascer - como no romance de Hemingway. Depois da tempestade, o arco-íris.
Pensar muito nessa época do ano faz mal. A vida é o que está acontecendo e não o que estamos esperando. Caso contrário acabaríamos não vivendo a realidade. É a lição final de Beckett, em Esperando Godot. Melhor é curtir a alegria da sensação de abertura do novo ciclo, nutrindo a ideia de que tudo flui, somente a eternidade é absolutamente imóvel. Feliz 2019.