Certa feita li que, estando no útero materno, não sentimos fome, sede, frio, calor, nem nada dessas coisas, pois aquele ambiente perfeitamente climatizado pelo líquido amniótico supre integralmente as necessidades vitais, razão pela qual não há frustrações pela falta de nada, não há carências ou desejos que precisem ser satisfeitos. Muito depois, descobri que Aristóteles definia autossuficiência "como sendo aquilo que, em si mesmo, torna a vida desejável e carente de nada", e que a isso ele chamava "felicidade". Ao conectar as informações percebi, então, que o útero é a felicidade aristotélica perfeita, pois apenas lá fomos de fato carentes e desejantes de nada.
Se há alguma razão na minha conclusão, isso faz do nascimento uma espécie de tragédia ou "expulsão do paraíso", a despeito de qualquer pecado original que a justifique. Ademais, pode haver também algum vínculo inconsciente com o paraíso perdido que nos faça passar a vida em busca de ambientes perfeitos onde possamos reviver a sensação de estarmos supridos de tudo ao mesmo tempo e no mesmo local, como se estivéssemos de volta ao útero. Seria essa a gênese do gosto generalizado pelos shopping centers, hotéis cinco estrelas, casas megaluxuosas e coisas do tipo? Essas coisas seriam a recriação artificial e possível do útero perdido a fim de satisfazer nosso inconsciente desejante? É por isso que a maioria das pessoas se sentem tão bem nesses locais?
Mas se é assim, o que dizer daqueles que, como eu, detestam todos esses lugares e só se sentem realmente plenos sob um teto de estrelas e diante da imprevisibilidade dos elementos? Seríamos inaptos à felicidade ou inclinados a um prazer degenerado? Acho que não!
Tenho para mim que o útero de plenitude perseguido por cada um é singular. Cada ser deve descobrir como é o seu sem lançar valorações morais sobre os outros modelos. Todavia, é preciso ter em mente que, tal como o útero real, esses também vão nos aceitar por um breve período antes de nos expulsarem, e, logo em seguida, se quisermos sentir novamente a plenitude que ofereceram, teremos de reencontrá-los em outras circunstâncias cambiantes, efêmeras e fugidias. À busca por esse reencontro chamaremos de vida, dinamismo, devir ou sei lá o quê. À inércia ou desistência chamaremos de depressão, mortificação, desperdício de vida, ou seja lá qual for o termo da moda.
Lembro de pegar meu filho no colo e, enquanto ele era expulso do seu paraíso, eu, por isso mesmo, ingressava no meu. Naquele momento fui pleno e desejante de nada. Feliz, portanto. O instante me bastava. Logo em seguida a mágica virou memória e nasci para a nova realidade de responsabilidades, inseguranças e noites insones, fui expulso daquele paraíso. Mas posso ainda reencontrá-lo nas efemérides cotidianas do desenvolvimento da minha criança, e vou renascendo rejuvenescido para as novas dificuldades, desconfortos e desafios decorrentes da sucessão infinda de fases do seu crescimento. Ora, e não é sempre assim que a felicidade nos visita e revisita.
Bom... Mas o que eu queria mesmo dizer é que, segundo me parece, só é realmente infeliz quem não quer ou não consegue mais renascer, porque desistiu ou não sabe mais encontrar os intermitentes úteros que a vida nos oferece para nos revigorarmos na transitória plenitude de felicidade que precede cada regresso aos nossos perenes desejos, frustrações e carências cotidianas. É no espaço hostil entre o vai e vem desses "partos" que vivemos, e, feito crianças, precisamos superar o choro de renascer e aprendermos a brincar diante dos riscos e ferimentos que certamente virão enquanto crescemos.
Cresça brincando, não chorando.