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| Antonio Correia preza pela fé e pela tradição da Folia de Reis |
Coincidentemente hoje, 6 de janeiro, Dias de Reis, o roceiro que aprendeu a tradição religiosa da festa popular no Triângulo Mineiro, ainda aos 8 anos, em Uberaba (MG), sai em festejo com as toadas e viola nos braços por um trajeto do bairro Bauru XVI. Antonio Correia completa 70 anos do chamado Reisado ou Festa de Santo Reis, um encontro com a fé e a festa folclórica que ele pretende manter "enquanto o senhor Deus me der energia e forças", diz. Antes, na última sexta-feira, seu Correia e sua trupe, os companheiros da Folia, mantiveram a apresentação anual a convite da Prefeitura de Balbinos.
De origem e hábitos simples, humilde como a própria essência dos Três Reis Magos que avistaram a estrela de anunciação na direção da boa nova, o nascimento do Menino Jesus, conforme o texto bíblico, seu Correia preza pela fé e pela tradição e, como em todo ano, espera que o encontro, aberto ao público, de caráter cultural e religioso, seja mantido pelas novas gerações.
É com este espírito de renovação em sua fé e na tradição, que Antonio Correia recebeu o JC para uma prosa entrecortada por seus ponteios, de lado canhoto, de toadas do que ele prefere chamar de "Companhia de Reis".
Jornal da Cidade - Senhor Antonio Correia, nos conte sobre suas origens e aprendizado, desde menino, com a Folia de Reis?
Antonio Correia - Eu Nasci em Agudos (SP), mas fui criado durante toda a infância em Uberaba, no Triângulo Mineiro. A família é de lá. Meu pai, Oscar Correia, foi roceiro, e com minha mãe Elvira Correia teve 7 filhos. Mas eu tive nove (sorri). Infelizmente, perdi alguns. Deus sabe o que faz! Seis estão vivos. Eu fui pedreiro. Eu acompanhava a Companhia de Reis desde os meus avôs, tio, pai em Minas Gerais. Aprendi ouvindo, vendo, rezando e guardando, de memória, a reza. É uma festa religiosa, de fé, tirada de importante passagem da Bíblia.
JC - E a tradição vai permanecer, as novas gerações estão aprendendo?
Correia - Tomara que ela continue por muitos e muitos anos. Eu rezo para que as novas gerações não deixem acabar a tradição. Eu sempre respeitei a fé, acompanhar a anunciação da estrela para que os Três Reis Magos fossem até o local onde o menino Jesus nasceu, do Natal, até o dia da Festa de Reis, é tradição, mas é fé, muita fé. A tradição ficou e que continue por muitos anos. Com 17 anos, eu voltei para Agudos. A família saiu de Agudos de volta para Minas, onde já tinha propriedade, para tentar emprego. Eu tinha nascido aqui porque estava difícil lá. Ai foi o caminho inverso. Mas com 17 anos eu já sabia tudo da Festa de Reis. Meu pai largou a terra lá e veio trabalhar como colono nas fazendas Serrinha, Cabreúva, em Agudos. Minha família viveu da roça, comprava na venda da autorização por escrito que o patrão dava por mês, pelo que produziu. A gente vivia da terra, com luz de querosene, cozinhava usando a banha, comia o porco, criava galinhas, plantava de tudo, tinha horta, roça de feijão e mandiocal. Todo mundo se ajuntava para trocar o que um tinha a mais. E se ajuntava também para rezar, agradecer.
JC - E o que é para o senhor a reunião de 6 de janeiro de todo ano?
Correia - É uma oportunidade para agradecer. E se o povo não gosta muito da reza, que venha para a cantoria, o encontro. Todo mundo participa. É aberto. E faz uma caminhada cantando. As toadas, os cânticos, são de improviso. Tem uma base porque nós já nos conhecemos há muito tempo. Mas os versos têm improviso. E tem, ao final, a comida, a reunião de todos, a macarronada, com farofa e frango frito. Mas rezamos o terço na tradição. Cantar também é uma oração pelo Menino Jesus. É a anunciação. E é um ato de agradecimento também pela saúde.
JC - Há mais o que agradecer ou pedir?
Correia - Tem muita dificuldade, enchente, miséria, muita gente sem emprego, sem ter onde morar, sem comer. Mas nós cantamos por um ano melhor também. E a Companhia de Reis aproveita esse início de ano para pedir, mas o personagem principal é Jesus. Eu também sou devoto de Santa Clara, além de Santo Reis, claro!
JC - O senhor aprendeu a tocar a viola como? Quem acompanha na Folia?
Correia - Aprendi a tocar viola sozinho. Ouvindo mesmo, acompanhando. Comecei pelo violão. Eu tocava escondido dos irmãos, que não deixavam eu pegar o violão deles quando eu era bem menino. Mas depois eu fui aprendendo, tocando melhor e foi assim. Comprei a viola quando eu já estava com 18 anos. Dois irmãos tocavam, mas não foram adiante. Eu aprendi melhor que eles, mesmo de ouvido (risos). Hoje tenho netos que tocam, que acompanham. A música tem toada baiana, mineira e goiana. Tem o palhaço, o que toca a caixa (percussão), dois cavacos, pandeiro, reco reco e três violas.
História da Folia de Reis
De caráter cultural e religioso, ela ocorre no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro (Dia de Reis ou Dia dos Três Reis Magos). No Brasil, a festa é celebrada em diversas regiões, mas as tradição se mantém mais firme no Rio de Janeiro, e em partes de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás. Em 2017, o Conselho Estadual de Patrimônio de Minas Gerais declarou a Folia de Reis como Patrimônio Imaterial do Estado. A origem da Folia de Reis está associada a uma tradição cristã, portuguesa e espanhola, trazida para o Brasil, provavelmente no século XIX.
A Folia de Reis é celebrada na religião católica com referência à visita dos três reis magos (Gaspar, Melchior (ou Belchior e Baltazar) ao menino Jesus. Na origem, ela é celebrada durante 12 dias, desde 24 de dezembro (véspera do nascimento de Jesus) até o dia 6 de janeiro, quando os reis magos chegam a Belém. Segundo a tradição, no momento em que os reis magos avistaram no céu a Estrela de Belém foram ao encontro de Jesus e levaram incenso, ouro e mirra.
O grupo da Folia de Reis é formado pelo mestre ou embaixador, o contramestre, os três reis magos, os palhaços, os alfeires e os foliões. Além disso, ocorrem desfiles pelas ruas dos grupos dedicados ao festejo. Eles usam fantasias coloridas, tocam músicas típicas com instrumentos como violas, reco-reco, tambores, acordeões, pandeiros e até sanfonas e gaitas, alem de dançar.
Perfil
Nome: Antonio Correia
Idade: 78 anos, 9 filhos
Pais: Oscar Correia e Elvira Correia
Religião: Católico
Nascimento: Agudos (SP)
Criação: Uberaba (MG)
Time: Corinthians
Nota 10: Para o Menino Jesus e Companhia de Reis
Nota zero: Para fome e a violência
Comida: Macarronada, com farofa e frango frito
Canção: "Chegada da bandeira", de domínio público
Esposa: Benedita Emídia Correia
Agenda da folia: Hoje, 6 de janeiro, na rua Marcelo Mariuzzo, 1-60, no Bauru 16. A missa é às 9h, na paróquia do bairro. Depois, a Folia de Reis segue pela manhã, com almoço. Gratuito. Informações: (14) 99708-9603.
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