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Nossa anulação étnica

Henrique Matthiesen
| Tempo de leitura: 2 min

Uma das tarefas mais intrincadas para a antropologia, assim como para a sociologia, é compreender e explicar o Brasil com suas contradições e riquezas. Sabedor desse desafio, Darcy Ribeiro, durante 30 anos, pesquisou e analisou profundamente os aspectos que formaram nosso povo, resultando no "O Povo Brasileiro", uma obra indispensável para conhecer o Brasil.

Sob a ótica antropológica de Darcy, as três matrizes que compõem nossa formação, indígena, europeia e africana, sofreram, no decorrer do processo histórico, uma "desculturalização", perderam suas identidades étnicas. É importante diferenciar etnia de raça. Conceitos díspares, uma vez que na tradição antropológica o termo etnia designa o grupo humano estável na história e no tempo, partilhando origens e tradições comuns, a mesma língua, a mesma cultura e, às vezes, os mesmos traços morfológicos.

Já o conceito de raça vigorou durante muito tempo como classificação por cor da pele ou pela origem. Contemporaneamente, é um conceito banido pelas ciências sociais e também pela genética por caracterizar como uma forma de preconceito. No Brasil e na sua formação, há cicatrizes mais bárbaras da brutalidade sob o desígnio de uma colonização que seguia duas feições: a de proporcionar lucros à Coroa e a de uma cruzada salvadorista sob a fé, que culminaram com a quebra e a perda da identidade étnica das três matrizes que compõem nossa formação.

A desindianização do índio, a desafricanização do negro e a deseuropeização do europeu germinou um novo povo, uma Nova Roma, segundo Darcy Ribeiro. Este novo povo nasce ante a chibata da elite deseuropeizada, que não comunga dos valores díspares de outras experiências colonizadoras, que se metamorfoseia em elites pátrias.

Aqui, criamos uma elite subordinada e subalterna aos interesses externos, que segue a sina da cultura escravocrata aplicando a metodologia de suas ancestralidades: do domínio e o do controle social pela violência e pela dominação cultural, do domesticamente das consciências. Não nos é permitida a conceituação de classes sociais e suas lutas. A ordem social sagrada é imutável. São paradigmas mais fortes do que as etnias aqui perdidas. Os fundamentos desta análise colaboram no entendimento de que uma desigualdade intrínseca à nossa sociedade, de uma cultura senhoril, violenta e paternalista são as nossas feridas mais profundas de um país ainda por se fazer.

A quebra de nossa identidade étnica fez do povo brasileiro um povo constrangido e desfigurado, que pagou, historicamente, e paga até hoje, um preço terrivelmente alto em suas lutas das mais sangrentas sem conseguir obter delas a constituição de independência, e desta forma perpetua-se a opressão em que vive boa parte da ancestralidade das matrizes indígenas e africanas, assim como posteriormente, os imigrantes.

Falta-nos a compreensão da história pretérita e um claro e inequívoco projeto de ordenação social-lúcido e inclusivo, e que não mais esmague e chacine os que outrora constituíram o que fora nossas matrizes étnicas.

O autor é bacharel em Direito e jornalista.

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