Em linguagem jurídica, o benefício da dúvida refere-se à condição da inexistência de uma certeza sobre a culpabilidade de alguém que está sob acusação de um crime, sendo absolvido pelo princípio de que é inocente. O que isso tem a ver com o governo de Jair Bolsonaro? Em âmbito geral e na economia em particular, os agentes econômicos estão dando o benefício da dúvida (nada a ver com culpa, e sim com as questões econômicas), considerando que foi gerada expectativa positiva no tocante a uma mexida para valer nas estruturas do Brasil.
Muita coisa foi dita pelos principais setores e ministros do atual governo, mas pouca coisa se materializou. É fácil perceber a ansiedade dos agentes econômicos.
O empresário que precisa de capital de giro, de vendas, de alavancar novamente seus negócios está com o coração na mão aguardando algum sinal mais contundente da economia brasileira. Os operadores do mercado analisam suas posições e indicam investimentos, notadamente no mercado acionário, na expectativa de que o ambiente de negócios irá mudar, para melhor, mas ainda estão com um pé atrás. Os trabalhadores, os profissionais liberais, enfim, todos os que operam o mercado de bens e serviços querem o mais rapidamente possível recuperar o tempo perdido.
Diante deste cenário, o que fazer? Primeiramente, ter paciência, mesmo que para alguns esta tenha atingido seu limite. Depois, é estabelecer estratégias de curto prazo. Isso mesmo. Como suportar os negócios, segurar a barra do desemprego, administrar os escassos recursos das finanças de casa, enfim, como levar as coisas, sem fortes abalos, por mais um período.
Evidentemente que para que a agonia da espera não se torne algo que leve todos a jogar a toalha, é preciso criar instrumentos que permitam cobrar respostas mais rápidas do atual do governo e ainda do Congresso Nacional a partir de fevereiro. Por sinal, sem a adesão firme do Congresso as reformas estruturais não serão materializadas.
A constatação é que o fôlego financeiro das pessoas e das empresas está no limite e quem tem recursos represados espera uma sinalização mais firme no tocante ao equacionamento das questões estruturantes da nossa economia para retirarem da gaveta os projetos produtivos.
Neste contexto, também se faz necessário atrair o capital estrangeiro e, para tanto, é preciso demonstrar para o resto do mundo, com questões concretas, que o Brasil está disposto a mudar, a abrir seu mercado, a oferecer segurança jurídica, enfim, garantir para quem aportar recursos no Brasil que irá conseguir bons retornos ao longo do tempo.
Utilizando os dizeres de São Tiago em sua única carta escrita (data imprecisa - podendo ser em 45 d.C. ou 62 d.C.) "o que é a fé sem obras"? Desta maneira, é preciso colocar em prática, oferecer resultados, materializar, caso contrário, não há fé que se sustente.
Desta forma, é preciso entender que o benefício da dúvida tem seu limite e este está diretamente ligado à concretização dos fatos: ou confirma-se a inocência ou condena-se de vez.
Ainda é possível manter a chama acesa e acreditar que dias melhores virão. Mais do que paciência, neste momento, é preciso traçar estratégias adequadas. É hora de mostrar toda sua capacidade em fazer a diferença.
O autor é economista, articulista do JC. Está no Youtube, no canal Planeta Economia.