Carminha era uma menina linda da terceira série que não tinha caneta. Eu era da quarta e tinha uma Parker 51, a mais cobiçada de todas. Tampa luxuosamente dourada, coisa de gente grande e endinheirada, nunca de um moleque como eu. Tanto pedi, chorei e prometi que acabei ganhando uma da minha mãe no natal. Não é que a Carminha não tivesse caneta, tinha sim, mas era uma porcaria, vazava azul e sujava a mão e o uniforme dela.
O coração de menino apaixonado, farejando a oportunidade, cochichou-me ótima ideia, porém interesseira: emprestar a Parker 51 para a Carminha. Era o plano, a estratégia. Esperei a garota na porta da sala de aula. Nervoso, gaguejei, me enrolei e atropelei as palavras. Mesmo assim, deu pra salvar um "Fica com ela, pode usar, na saída você me devolve!" Antes que ela pudesse me dizer qualquer coisa, sumi envergonhado, mas orgulhoso da façanha realizada. Hoje, quando me lembro da cena, reconheço, constrangido, que aquele foi o meu primeiro suborno. Outros, todos muito leves, eu os cometeria vida a fora, mas sempre por uma boa causa. Alivia-me, também, relembrar a nobreza da propina: tudo por amor. Fiz o que o coração mandou, mais ou menos aquela coisa do fim perdoando os meios. Sabe?
Mal tocava o sinal do recreio, eu saía voando da aula para sentar numa mureta da quadra. Era o local privilegiado que me permitia, todas as tardes, ver e ouvir a minha Carminha. Mais linda ainda, entre outras meninas, ela cantava: "E a fonte a cantar chuá, chuá e a água a correr chuê, chuê... Embalado pela voz da minha amada, esse chuá-chuê me arrebatava de tal forma, que e eu ficava ali sonhando, esquecido do tempo e do lanchinho que minha mãe preparava.
Era perfeito o que eu tinha planejado. Garantia-me, todos os dias, dois momentos preciosos com a Carminha. Na entrada das aulas, eu chegava cheio de amor e entregava a caneta; na saída ela me devolvia e eu, cheio de amor, transbordava de mim. Então, menti o endereço (eu morava na direção contrária) só para fazer o trajeto da casa dela. Assim, voltávamos juntinhos da escola, rindo muito. Eu arrancava florezinhas para enfeitar os cabelos dela, chutava as latinhas do caminho, fazia caretas para enfurecer os cachorros (presos)... Era o mais babaca e feliz dos meninos, um palhacinho apaixonado. Odiava a escola, os professores e tudo o que ensinavam, mas não perdia, gripado ou com a perna quebrada, um dia de aula sequer.
Eu tinha uma Parker 51. Ele tinha dois olhos azuis. Estou falando do Leonardo, o novo aluno da minha classe. Alto e forte, o menino bonito virou rapidamente assunto e paixão das meninas que mandavam para ele bilhetinhos dobrados e perfumados. Isso pouco me importava, eu continuava acompanhando a Carminha na saída das aulas, fazendo as mesmas gracinhas de sempre. Uma tarde ela interrompeu a caminhada e, pela primeira vez, me chamou para sentar, um tempinho só, num banco da praça. Perfeito! Enfim, o momento tinha chegado. Nós dois sozinhos, árvores, lago, patinhos e muito verde... Era, com certeza, o sinal e o cenário do começo de namoro que eu tanto esperava.
"Dinho", era assim que ela me chamava, você é o meu melhor amigo e a melhor redação da escola. Você me ajuda a escrever um bilhetinho bem bacana pro Leonardo? Perdi o chão. O mundo desabou. Pirei. Foi assim tragicamente que os dois olhos azuis invadiram a nossa história, corrijo-me, a minha história de amor. Só eu sei o quanto doeu cada sílaba, cada vírgula, do maldito bilhete. Ela, percebendo a minha dificuldade, me exigia adjetivo melhor, buscasse inspiração, era ou não era o bom da redação? Saco! Fiz o que pude, ela não podia perceber o tamanho da punhalada. E, o pior, tudo escrito com a minha infiel Parker 51. Ignorando a ferida aberta, ela cravou o punhal pela segunda vez, pedia mais um favorzinho, que eu entregasse o bilhete para o Leo, o desgraçado já não era Leonardo. Recusei de imediato, mandasse uma amiga, o que a molecada pensaria de mim?
Eu só tinha uma Parker 51. Ele tinha dois olhos azuis. Mandei um bilhete para a Carminha, confessando todo o meu amor e a minha decepção. Ela, então namorando o Leo, me ignorou. Nunca mais falei com ela nem a caneta emprestei. De longe, eu via, todos os dias, os dois juntinhos no mesmo caminho que fazíamos. Chorando, consolava-me pequena vingança: ela tinha as mãos sujas de uma tinta ordinária e azul.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais -curso_romag@uol.com.br