Em um dos contos de Tchekhóv (1860-1904), o chefe da aldeia afirma que os filhos "são honestos: só mentem por necessidade". Poderoso no território, ele é responsável não só pela distribuição de justiça, como arauto da moralidade. Deseja que seus rebentos construam os alicerces da dinastia política a partir da base por ele inaugurada. Os filhos não podem falhar nessa missão mesmo que contrariem princípios. As "pequenas" falhas devem ser levadas à conta das peraltices, próprias de um garoto qualquer, mesmo que o primogênito já seja homem feito, com mais de 40 anos.
Nada mais real do que a ficção. As obras de arte nunca perdem a atualidade. A de Tchekhóv cabe muito bem no Brasil de hoje. Antigamente os pais preparavam os filhos para a vida; hoje, os progenitores preferem proteger os filhos da vida. Livrá-los dos pedófilos, sequestradores e marcianos. Às vezes da imprensa. Aprisionam os filhos em casa - comem sacos de batatinha e veem TV. A obesidade infantil é epidêmica. O escritor português João Pereira Coutinho chama de "pais-helicópteros", aqueles que protegem os filhos até na universidade, "como flores na estufa".
Nos Estados Unidos as crianças mimadas eram chamadas de "spoiled" (estragadas). Agora são chamadas de "entitle" (com direito a tudo). Têm todos os direitos e nenhum dever, só porque nasceram. Crianças não são mais propriedades dos pais. Só os cachorros.
Quando se pensa que as últimas eleições possibilitaram expressiva renovação no Congresso, o que ocorreu foi o aumento substancial da chamada "bancada dos parentes". Dados da organização independente Transparência Brasil indicam que metade dos 523 deputados eleitos têm relações familiares com outros políticos. As raízes da tradição do chamado "poder de pai para filho" remontam à colonização portuguesa do Brasil. Segundo especialistas, a administração territorial da então colônia portuguesa foi feita pelo sistema de capitanias hereditárias - porções do território brasileiro distribuídos aos amigos da coroa. Quando se instaurou a República, as dinastias familiares continuaram, fortalecidas com o alinhamento ao poder político. Nasceu daí o fenômeno conhecido como "coronelismo", que designa o controle da política por um pequeno grupo de privilegiados.
Com a ascensão do "fenômeno" Jair Bolsonaro, os seus filhos ganharam destaque. Condição ideal para a formação de uma nova dinastia. Flávio, o mais velho, foi eleito senador pelo Rio com mais de 4 milhões de votos. Ele é irmão do deputado federal Eduardo e do vereador Carlos. Todos eles comungam com os ideais aprendidos com o pai Jair Bolsonaro. Resumidamente: "defesa da família; dos valores cristãos; do valor e importância do trabalho e do mérito como mais justos critérios de progresso social e distribuição de renda; da ética; e do direito à propriedade e à posse de armas por cidadãos cumpridores das leis".
A pregação de valores do "zero um" Flávio, começa a soçobrar com as denúncias das lambanças do tempo em que seguia o baixo-clero da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, como deputado. Supostamente, praticou a rachadinha, apropriação ilegal e imoral de parte dos salários dos comissionados em seu gabinete. Deu emprego à mãe e à mulher do policial acusado de chefiar milícia. Adriano Nóbrega, foragido, teria sido algoz de Marielle Franco, a vereadora assassinada a tiros em março do ano passado. Flávio condecorou com a medalha "Tiradentes", o suposto assassino. O funcionário de gabinete Fabrício Queiroz, fez movimentações financeiras milionárias.
Tem sido impossível justificar os 48 depósitos de 2 mil reais na conta bancária do senador eleito. O patrimônio do "garoto", também cresceu 432% em quatro anos. Somente com a venda de duas quitinetes ganhou R$ 813 mil. É verdade que essa performance perde longe para a do Fábio Luiz (Lulinha), o Ronaldinho dos Negócios, segundo o orgulhoso papai Luiz Inácio: conseguiu contrato 82 milhões com a Oi, para desenvolver um videogame. O filho caçula de Lula, Luiz Cláudio, firmou contrato com a Odebrecht de R$ 70 mil por mês, durante quatro anos, para aprender gestão esportiva e tocar um projeto de criação de uma liga de futebol americano no Brasil. Deu em nada, mas o menino enriqueceu.
No Brasil, você está sempre na condição de herói da tragédia. A lama desce, mata e destrói. Quando acredita que uma nova era se inicia, com lufadas de esperança, começa a descobrir que tudo mudou para que continuasse o mesmo.
E você não morre, José.