Geral

Ela resgata arte do lixo e decora a casa

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Douglas Reis
Nilza mostra um dos quadros que achou: "Eu adoro, porque me lembra o Rio São Francisco, onde eu cresci e pescava com meu pai"

Um barraco de dois cômodos separados por um armário e caprichosamente decorado com muitos quadros e outros objetos. "Simples, bonito e aconchegante". É assim que Nilza Lopes Vieira, de 60 anos, define o local onde mora com o filho de 39 anos, o neto de 13 e o cãozinho Black. Baiana e apaixonada por arte e trabalhos manuais, ela chegou a Bauru há 6 anos em busca de melhores condições, mas acabou recorrendo ao lixo como forma de sustento. E foi lá que ela passou a coletar também materiais e quadros jogados fora pelas pessoas para decorar onde vive.

"É uma casinha simples, mas gosto de tudo organizado e sou louca por arte feita pelas mãos das pessoas, como quadros, vasos, tapetes e cestas de palha. Isso tudo me faz lembrar de Salvador, minha terra", conta dona Nilza.

O barraco em que ela mora fica em uma área com acesso por meio do Ecoponto Antônio Eufrásio de Toledo, na quadra 2 da rua Sorocabana.

"Sabemos tudo o que chega e o que sai. Por isso, consigo pegar muita coisa boa. Cheguei a Bauru só com as roupas e montei meu barraco tudo com o que pegamos aqui. Hoje, ganhamos uns trocados vendendo o que selecionamos lá no meio. Tem tapete, mesa, guarda roupas, colchões, até TV, rádio e uma esteira elétrica eu já peguei", conta.

Alguns quadros, em melhores condições, ela também comercializa, mas a saída é menor. A clientela é formada por pessoas como ela, que buscam o que precisam no que é considerado inservível para muita gente.

"É triste ver as pessoas descartando tantas coisas boas. Ninguém mais dá valor aos trabalhos com pinturas e madeiras. Lá na minha terra, isso era ouro", acrescenta a mulher, mostrando os mais de 20 quadros espalhados pelos dois cômodos. Por lá, ela também coleciona taças, vasos e outros objetos decorativos. "Mas as taças eu deixo no alto para ninguém pegar, porque a maioria está rachada. São só para decorar mesmo", detalha.

Costureira de mão cheia, dona Nilza produziu seu próprio enxoval, que decora a cama de casal em um dos cômodos. "Hoje, eu tenho o quarto que sempre sonhei: cama grande decorada e a parede com quadros", comenta.

VIDA

Sem estudo, seu repertório sobre o mundo da arte se restringe às assinaturas dos quadros que encontra jogados. "Não conheço nada disso aí que você diz, mas esses quadros aqui são lindos. Este mesmo eu adoro, porque me lembra o Rio São Francisco, onde eu cresci e pescava com meu pai", lembra.

Atualmente desempregada, ela conta ter se desiludido do trabalho de empregada doméstica e faxineira, que exercia desde os 14 anos em Salvador, por não ter conseguido se aposentar. "Quando fui atrás, tinha só três registros na carteira, sem direito a nada na vida. E sofro com artrite e depressão, não consigo mais render. No máximo, faço uns consertos em roupas, como zíper e barra. Mas vivo mesmo com ajuda dos meus seis filhos, com R$ 79 do Bolsa Família e com o que consigo com a venda dos materiais aqui", explica.

A vontade de voltar para Salvador aumentou nos últimos dias, quando a água do casebre foi cortada.

"Sei que o lugar é irregular, mas cortar a água nesse calor é desumano. Temos dependido de vizinhos. Eu vou embora de Bauru, mas meus filhos vão ficar para continuar tentando emprego. Espero que as coisas melhorem", finaliza.

 

Comentários

Comentários