Há momentos em que o já dito deve ser retomado e penso que estamos vivenciando tempos em que tal feito se faz necessário. Venho acompanhando, com certa preocupação, a divulgação do movimento ou "sistema educacional" homeschooling (ensino domiciliar), como uma possibilidade legal no Brasil.
Não pretendo falar especificamente sobre essa questão que, com certeza, tem seus defensores e críticos. Pretendo, outrossim, reforçar o papel da escola, enquanto instituição, na formação psíquica das crianças. Quando falo em formação psíquica estou me referindo ao desenvolvimento integral da criança que inclui a dimensão física, cognitiva, afetiva e sócio-moral e fenômenos como a construção da personalidade, da subjetividade, da individuação, da socialização, entre outros.
A escola é uma grande experiência de socialização, ainda que não seja a única. É, sobretudo, na escola que a criança entra em contato com diferentes universos psíquicos e sociais e experimenta ativamente as diferenças. É na escola que a criança se confrontará com regras com as quais não está habituada e terá que fazer certo esforço cognitivo e afetivo para internalizá-las. É na escola que a criança se encontrará com outras crianças e adultos que não aqueles do seu bairro, da sua igreja, do seu "curso de inglês" (para os que podem frequentá-lo), da sua comunidade.
É na escola que a criança estará em contato com profissionais da Educação que passaram por cursos de formação universitária e que, ainda que mal remunerados, exercem sua profissão com dignidade e competência. Há exceções? Claro, como em todas as profissões. Mas, assim como os profissionais de tantas outras instituições que sofrem com a falta de estrutura, de reposição de quadros e de remuneração adequada, os professores, em sua esmagadora maioria, se esforçam cotidianamente para fazer o melhor possível e ensinar às novas gerações o conhecimento historicamente construído.
A escola é, também, uma grande experiência afetiva. É, sobretudo, na escola que a criança constrói traços de personalidade. É na escola que o seu temperamento será confrontado com a formação do seu caráter, a partir dos valores morais vivenciados. É na escola que a criança sofrerá frustrações, enfrentará recusas e algumas rejeições, exercitará sua capacidade de descentração e resiliência. É na escola que viverá, ainda, algumas possíveis experiências negativas dos grupos humanos, como o bullying e a violência, que deverão ser combatidos por meio do estabelecimento de ambientes sócio-morais nos quais prevaleçam o respeito mútuo e a cooperação. Enfim, é na escola que a criança poderá vivenciar a humanidade e, por meio dessa interação, se construir como sujeito humano.
Haverá experiências boas e ruins vivenciadas na escola e são justamente essas experiências que estão na base do desenvolvimento psíquico. Para além do seu potencial de formação e de transmissão do conhecimento e da cultura historicamente construída, a escola é lugar de vida. A escola como lugar público e de construção da cidadania não pode, e não deve, ser descartada enquanto instituição necessária ao pleno desenvolvimento humano.
"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida." (John Dewey).
A autora é psicóloga, doutora em Educação e livre docente em Psicologia da Educação.