Por que muitos sentiram tanto a morte de Ricardo Boechat? Porque, ali, não foi apenas uma figura conhecida que desapareceu. Sumiu alguém cuja visibilidade era projetada na base do mérito.
O jornalista da fala direta era, como definiu o colega Chico Pinheiro, o "maior intérprete do cidadão comum". Prova disso foi a manifestação de uma ouvinte, Luciana Moura, à Band News, onde Boechat estava todas as manhãs: "A dor de vocês também é a nossa".
Ele se arriscava bastante no raciocínio compartilhado com o grande público. Levando-se em conta o reconhecimento geral, deve ter tido mais êxitos do que derrapadas. E exibia empenho - outra lição.
Parece ser mesmo verdade aquela história de que Boechat criou calos nas orelhas de tanto fazer ligações para apurar notícias, cultivar fontes ou fazer contatos. Eu mesmo, quando integrava a equipe de assessoria de imprensa do hospital Centrinho/USP, atendi a uma ligação dele - um tempo sem WhatsApp, etc.
Foi aquela mesma voz contundente com um providencial "ô, meu querido..." para começo de papo. Ele tirou uma dúvida, fez um pedido, agradeceu e seguiu suas apurações, imagino eu, emendando uma ligação na outra de sua mesa bagunçada.
Parecia ser desses caras ansiosos que precisam resolver as coisas, todas as coisas, o tempo todo. Sem paciência para postergar. E com persistente disposição para se informar antes de rasgar o verbo contra os desmandos nacionais.
Uma imagem na "IstoÉ" desta semana resume esse mergulho nos acontecimentos ao qual se dedicava antes de abrir o microfone na TV ou no rádio: Boechat sentado no chão, em área de estacionamento da Band, com jornais espalhados ao seu lado.
Perdemos nós o chão com a notícia de sua desnecessária saída de cena. Quem sabe não compilam em livro alguns de seus comentários de improviso, daqueles sem palavras inúteis e tão precisos quanto afiados. Seria mais uma forma de manter aceso seu farol de indignação no nosso horizonte.
Fora daqui, minha gente, o barco de Boechat já navega, firme e forte, na eternidade a que fazem jus os relevantes.