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'Depois do não, tudo é assédio'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Douglas Reis
Alunos Lucas Leonel, Pérola Elen, Érica Aparecida, Kaieny Vitória e Laura Júlia fizeram apresentação

Frases como "Depois do não, tudo é assédio" e "A sociedade ensina a mulher a não ser estuprada, mas não ensina o homem a não estuprar" tomaram conta da Escola Estadual Professor José Aparecido Guedes de Azevedo, no Bela Vista, em Bauru. Bem nas vésperas do Carnaval, os alunos da 3.ª série do Ensino Médio trouxeram à tona uma temática tão preocupante que até virou lei. Desde setembro do ano anterior, a importunação sexual prevê pena de 1 a 5 anos de reclusão.

O estudante João Pedro Bosso, de 17 anos, explica que a ideia surgiu há três semanas, mas com outra roupagem. Os alunos queriam discutir o tema fora do colégio, porém, esbarraram em alguns impedimentos e optaram por fazê-lo na própria escola.

Já a escolha do assunto foi pontual. "Estamos perto do Carnaval e do Dia Internacional da Mulher", revela a estudante Laura Júlia, de 16. 

De lá para cá, o grupo, formado por João Pedro Bosso, Laura Júlia, Érica Aparecida, Pérola Elen Borba, Kaieny Vitória e Lucas Leonel, colocou tudo no papel, momento em que nasceu o título do trabalho: "Grito Silencioso".

O projeto, então, foi dividido em duas vertentes: conscientização sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), destinada somente aos alunos do Ensino Médio; e performance acerca do assédio sexual, acompanhada por todos os estudantes do colégio.

A apresentação, inclusive, consistiu em um movimento silencioso. Com o rosto pintado de vermelho, os integrantes do grupo seguraram cartazes que falavam por si só. Na ocasião, nenhuma palavra foi dita.

Ambas as iniciativas foram colocadas em prática anteontem, faltando poucos dias para o Carnaval. Contudo, a equipe pretende expandir a ideia logo que retornar do recesso escolar, afinal, é importante discutir a temática em qualquer época do ano.

QUEBRA DE PARADIGMAS

Douglas Reis
O trabalho foi orientado pela professora Suzana Saconato

Professora e orientadora do trabalho, Suzana Saconato também é secretária do Conselho Municipal de Políticas Para Mulheres. Segundo ela, a intenção do projeto é quebrar paradigmas através da arte. "Acredito que vão crescer muito, ao trabalhar tal temática no decorrer do ano".

Já a diretora do colégio, cujo ensino é integral, Luciana Pegoraro de Mello e Silva, afirma que o protagonismo é bastante valorizado pelo corpo docente. "Eles têm ideias e a direção avalia as possibilidades de execução. Caso não seja possível fazê-lo, encontramos outro jeito, mas nunca proibimos", constata.

A escola, carinhosamente chamada de Jaga, trabalha com 500 alunos, com idades entre 11 e 18 anos.

Mão boba é crime!

Desde setembro de 2018, tocar o corpo de alguém, sem o devido consentimento, para obter prazer deixou de ser contravenção e virou crime. A pena prevista para casos como mão boba e beijo roubado, ações infelizmente comuns durante o Carnaval, é de 1 a 5 anos de reclusão.

Presidente do Conselho Municipal de Políticas para Mulheres, Marizabel Moreno Ghirardello avalia que a lei é importante. Contudo, por ser recente, talvez, não haja muita adesão. "Tanto por parte da vítima, ao denunciar, quanto por parte do autor, ao optar por não cometer o crime", detalha.

Mesmo assim, a instituição segue com o trabalho de conscientização. Inclusive, promoverá uma mesa-redonda intitulada "Eles por elas". O evento está marcado para o próximo dia 12, às 19h30, na Subseção da OAB, em Bauru.

Na ocasião, os órgãos envolvidos com o atendimento à mulher vítima de violência, como Polícia Militar (PM), Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Justiça e Instituto Médico Legal (IML), discutirão as falhas do serviço.

Para que a lei exerça o papel de coibir este tipo de crime, a denúncia é mais do que importante. Logo, o recomendado é entrar em contato através do 180 (Disque Denúncia) ou 190.

 

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