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A escolha de uma profissão

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Entre as apostas de longo alcance, a escolha de uma profissão é, com frequência, das mais difíceis. Como observava o pensador e humanista francês Michel de Montaigne (1533 - 1592): "ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando". É verdade, mas a escolha de uma profissão não é uma decisão comum. Ela nos incita a pensar no ciclo completo de nossa vida; ela pertence à seleta classe das decisões que podem iluminar ou ensombrecer. Durante minha vida acadêmica ouvi de muitos profissionais algo que poderia resumir em mais uma frase do ilustre renascentista francês: "fiz de mim o que não soube e o que podia fazer de mim não o fiz". Correções de rota e recomeços radicais são sempre possíveis, mas o custo pode ser elevado ou estar além do que se pode pagar.

Sem dúvida, parte do problema é a idade em que essa escolha, normalmente, precisa ser feita. O jovem combina impulsividade, otimismo e uma generosa capacidade de investir em sonhos de realização pessoal com uma não menos pronunciada dificuldade de antever com realismo as consequências da escolha feita. Pude observar com frequência, em quarenta anos de magistério no ensino superior, tanto na USP como na Unesp, que o jovem é o foco natural da ansiedade daqueles que o criaram, torcem e rezam por sua felicidade. Ele se sente, portanto, compelido a não desapontar e a corresponder às expectativas - reveladas, mal disfarçadas ou secretas - dos pais.

Para ilustrar esse artigo, vou contar duas histórias: a do René e a do Charles.

A ambição de René, um jovem francês provinciano, era seguir uma carreira militar e tornar-se oficial do prestigioso exército comandado por Maurício de Nassau. Findo o curso em colégio jesuíta, ele estudou esgrima, equitação e alistou-se aos 22 anos. Acontece, porém, que ele era fisicamente frágil e tinha enorme dificuldade em acordar cedo. O fracasso veio a galope. Seu pai, desapontado, chegou a recriminar o filho caçula, acusando-o de não servir para nada. Frustrado na vida de ação e aventura que pretendia levar, René recolheu-se a um pequeno cômodo em Ultrecht, na Holanda e pôs-se a conversar consigo mesmo sobre seus pensamentos. Cogito, ergo sum. Desse passo em falso nasceu Descartes.

Ao contrário de René, o jovem Charles não sabia o que fazer da vida. Por falta de opção, acabou cedendo à pressão do pai, que era médico e matriculou-se no curso de Medicina em Edimburgo. Não funcionou, largou a faculdade sem obter o diploma e seguiu para a Universidade de Cambridge, onde pretendia preparar-se para uma carreira no clero da Igreja Anglicana. Seu desempenho acadêmico foi medíocre. Pior: no meio do caminho do curso, perdeu a fé. Sem rumo, Charles decidiu aceitar um posto a bordo de um navio que passaria cinco anos navegando pelos mares do Atlântico Sul. Seu pai foi ferozmente contra a aventura.

Chegou a declarar que essa era uma ocupação inútil. Só graças ao apoio providencial de um tio, conseguiu viajar. O espetáculo da natureza sul-americana deu-lhe o que pensar.

Assim Darwin se fez.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru.

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