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Diabetes e hipertensão: 'vilões' aos rins

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Antônio Francisco, 57 anos, teve a doença renal crônica por conta de diabetes e obesidade

Eles têm 150 gramas distribuídos em 12 centímetros de altura. Não tão enfatizados quanto outros órgãos - como coração, fígado e pulmão -, os rins são responsáveis por funções vitais no organismo. Mas, quando esses pequenos notáveis se abatem, a doença renal crônica chega silenciosa e destrói as estruturas até o órgão parar de funcionar. E um alerta: outros males do organismo, como a hipertensão e o diabetes, são os grandes "vilões" contra os rins.

No Dia Mundial do Rim (leia mais na página ao lado), celebrado todos os anos na segunda quinta-feira do mês de março, ou seja, hoje, a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) alerta para a importância do órgão. Nesta edição, o tema é "Saúde dos rins para todos".

"O rim é um órgão responsável por diversas funções no organismo. Dentre elas, a produção e introdução de hormônios para o bom funcionamento sanguíneo e ósseo, a manutenção do estado hidroeletrolítico do organismo, ou seja, para evitar que o potássio fique alto e tenha repercussão no coração, alterações no sódio e de outros eletrólitos. Enfim, são diversas funções que não só a filtração do sangue. Em última análise, o rim é um órgão que sentirá quando qualquer outra coisa não está funcionando bem no organismo", afirma o médico coordenador da Nefrologia do Hospital Estadual (HE) de Bauru, Durval Sampaio de Souza Garms.

1,1 MIL EM TRATAMENTO

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, atualmente, há mais de 1,1 mil pacientes da região em atendimento de doença renal crônica. Destes, cerca de 425 estão em tratamento nos hospitais Estadual e de Base. "As principais causas da doença renal crônica no mundo todo são o diabetes e a hipertensão. Bem como o envelhecimento, já que as repercussões no organismo podem acarretar a doença renal crônica", destaca Garms.

Doenças glomerulares, que são as específicas do rim; a doença policística renal, que é intrínseca ao rim; e algumas doenças genéticas também podem resultar em problemas renais crônicos. "Uma vez diagnosticado, o paciente deve ser acompanhado com as doenças de base que ele tem. A doença renal crônica progride em diversos estágios e, neste período, o acompanhamento médico é responsável por fazer que a doença progrida o mais lentamente possível", afirma.

PREVENÇÃO

O nefrologista André Lopes, da Unimed, destaca a importância da prevenção da doença, principalmente, quando se apresentam fatores de risco. "A doença renal é muito silenciosa. Existem grupos de risco clássicos que levam a ela. Quase 80% dos pacientes com doença renal crônica são hipertensos, diabéticos ou têm histórico familiar de doença renal. O mais importante nesse grupo de risco é controlar essas doenças", afirma Lopes. "A melhor forma de prevenir é comer pouco sal, ter um estilo de vida saudável, beber de 30 a 35 mililitros de água por quilo de peso, evitar o uso de medicamento que podem fazer mal, como os anti-inflamatórios que são muito maléficos para o funcionamento do rim".

Já as pessoas que apresentam episódios de doença renal na família devem fazer um acompanhamento mais precoce. "Não adianta esperar o diagnóstico. Nesses casos, o paciente tem que procurar ativamente um nefrologista para fazer uma avaliação melhor", finaliza Lopes.

A avaliação é feita através de um exame de creatinina colhida no sangue e pela investigação de proteína presente na urina. Os profissionais indicam que deve ser feita pelo menos uma vez por ano.

Pacientes destacam importância da prevenção e de exames em dia

"Vizinhos" de cadeira na hemodiálise, Antônio Francisco de Barros, de 57 anos e Jefferson Savi, de 60 anos, chegaram no Hospital Estadual em tempo e por motivos distintos. Mas, quando o assunto é prevenção, os dois têm discurso igual. "O importante é estar com os exames em dia e prevenir", afirma Antônio.

Jefferson concorda, mesmo tendo sido diagnosticado com doença renal policística, que é hereditária em 90% dos casos e tem causa decorrente de mutações nos genes PKD1 (85%) e PKD2 (15%), que passa de pais para filhos de forma dominante, ou seja, se um dos pais tiver a doença, seu filho tem chance de 50% de ter também. "Eu não sabia que tinha problema renal. Comecei a me sentir mal, inchado, com um gosto ruim na boca e falta de ar e fui ao hospital. Dalí em diante, faço hemodiálise toda semana", diz.

Isso aconteceu há oito anos. Neste meio tempo, Jefferson chegou a receber um rim. "Faz seis meses que fiz o transplante, mas, em três dias, tive que retirá-lo, tive complicações. Estou, novamente, na lista de espera", afirma.

Quem também espera por um rim é Antônio que, por conta de obesidade e diabetes, adquiriu a doença crônica nos rins. "Vai fazer quatro anos que faço hemodiálise. Hoje, controlei o diabetes e cuido ainda mais da minha saúde. Antes, não fazia exames regulares", finaliza.

Representação no Congresso

Em Bauru, a Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec) representa os portadores da doença, levando a realidade local até o Congresso Nacional. Lá, junto a outras associações de renais e à Federação Nacional de Associações de Renais e Transplantados (Fenapar), da qual a Abrec é sócia-fundadora, busca sensibilizar os governantes quanto à urgência de medidas para minimizar os sofrimentos causados pela doença. Além disso, aborda o impacto socioeconômico bastante expressivo sentido pelos doentes e familiares, bem como a necessidade de campanhas de prevenção e luta pela garantia de direitos e por um tratamento mais humanizado.

"Apenas nos centros de hemodiálise públicos de Bauru, em 12 meses, foram registrados mais de 25% de aumento nos casos da insuficiência renal crônica, mais que o dobro da média mundial, que é de 10% ao ano", afirma a presidente da associação, Maria Bernadete Matos Bento.

"Nós ainda batalhamos com um projeto de Lei, a PL 155, para que o doente renal seja considerado um deficiente, já que ele tem uma deficiência não física, mas orgânica, que o deixa vinculado ao tratamento em máquinas, sem condições de trabalho", finaliza.

Tratamento em casa

Samantha Ciuffa
Garms mostra máquina de diálise peritoneal

Desde outubro de 2017, o Hospital Estadual (HE) de Bauru iniciou o incentivo à diálise peritoneal e, a partir de setembro do ano passado, a oferta foi ampliada por meio do programa "Urgent Start", que capacita famílias para o tratamento. O projeto tem sido uma alternativa de método dialítico inicial aos pacientes que necessitam desse tipo de assistência e está em implementação no Hospital de Base. "Por conta das dificuldades encontradas em relação às vagas de hemodiálise, uma alternativa foi o tratamento com a diálise peritoneal para pacientes em urgência. Atualmente, atendemos 60 pessoas nessas condições", afirma o médico coordenador da Nefrologia do HE de Bauru, Durval Sampaio de Souza Garms.

Diferentemente da hemodiálise, que é feita três vezes por semana e com duração de quatro horas, a diálise peritoneal é realizada num período de 10 horas e pode ser feita em casa. "Os pacientes fazem uma troca de soluções por um cateter na barriga, de forma menos agressiva, e não precisam ficar restritos ao hospital. Familiares e o próprio paciente recebem um treinamento para lidar com a solução e com a máquina da diálise. Ele começa o tratamento aqui e, depois, segue em casa, precisando retornar apenas uma vez por mês ao hospital para consulta médica", explica.

Ainda de acordo com Garms, o paciente não tem custo nenhum para equipar sua casa com a máquina e a solução de diálise. "O ideal é que ele utilize a máquina enquanto dorme, já que o procedimento demora 10 horas e deve ser feito todos os dias. O serviço oferece tudo gratuitamente", finaliza Garms.

 

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