Tribuna do Leitor

Quando a dor vira palavra

Olynda Aparecida Bassan Franco - Membro da ABletras.
| Tempo de leitura: 4 min

Li textos em prosa e em versos - manifesto da tragédia na escola de Suzano. O vento espalhou tristeza imensa pelo portão das perdas.

Alguns gritando a dor, a incredibilidade, a indignação que arrebata a alma e a consciência do impossível. Outros analisando o comportamento das famílias, dos jovens da geração das teclas, da telinha em luz. Alienações. Choramos juntos a fatalidade das famílias, mas jamais a dor inteira das entranhas daquela comunidade.

Meu texto versa sobre experiências vividas como educadora, frente aos conflitos escolares. Foram fáceis? Lógico que não. Sempre conseguimos saná-los e trazermos o aluno para o seio da escola? Lógico que não. Mas, sentir a vida retornando naquele aluno sem sonhos, nos fazia vibrar. Pessoas tão pequenas diante do mundo, agora inclusas e mais felizes, antes que pulassem o muro.

Toda vez que me cai um objeto pequeno das mãos, faço uma reflexão. Olynda, não o procure no ponto da queda. Ele se foi para longe do seu domínio. Olhando em volta, mais além, o achará.

O professor Romualdo, do CEFAM, a cada conflito entre aos alunos me dizia: "D. Olynda, vamos pesquisar o 'foco' da encrenca. Por certo está lá atrás". Dito e feito. Durante as conversas descobria-se que a onda de desarmonia fora avolumando-se aos poucos, silenciosamente, sem verbos e substantivos.

Tais reflexões fizeram-me trilhar o caminho da mediação, da prevenção, onde a dor se fazia palavra, onde o coração se abria em confiança. Relato, aqui, experiências como diretora da EE Prof. Joaquim De Michiele. Comunidade amada para sempre. Que equipe! De Michieli - Escola complexa.

Quatro classes acolhendo necessidades especiais: Surdo/Mudo, Síndrome de Down, Paralisia Cerebral, Lábios Leporinos e tantas outras. Recebíamos alunos de instituições acolhedoras de crianças que sofriam abusos, maus tratos, desamadas. Não sabiam o que era amar, gostar da vida e serem gentis. A vida não era gentil. E apesar de tantos desafios, a equipe vivia na paz, no humor e no amor. Trilhávamos o mesmo caminho, sem atalhos, na educação acolhedora e transformadora. Os demais alunos exercitavam o amar e aceitar as diferenças. Conheciam um outro mundo além do seu quarto. O cantar do Pai Nosso em Libras, pela equipe toda, é uma terna lembrança.

Quando percebíamos alguma fumacinha no relacionamento dos alunos, que prenunciava incêndio, os envolvidos eram convidados para uma roda de conversa na sala dos professores. De modo descontraído, sem julgamento, desengasgavam suas mazelas, seus "mimimis", suas sombras. Não eram forçados ao perdão, nem às desculpas de imediato. Outro encontro era marcado. Teria que ser um sentimento aflorado na alma. Nesse tempo de espera, eles se definiriam como amigos, ou apenas se respeitariam como colegas. Ouvíamos histórias de bullying, de desamor, de ciúmes, de inveja...

Os alunos já estavam acostumados. Entravam na sala e já diziam: "D. Olynda, vamos descobrir o foco do problema?" Amoooo - rs.

Por certo, não conhecíamos as angústias de tantos outros. Também talentos encobertos. Mas, por esse canal aberto de comunicação, muitos conflitos sérios foram prevenidos. Alguns nos escapavam pelas mãos. Não os líamos. Crianças abusadas chegavam desconfiadas da acolhida; de serem olhadas além da roupinha, do olhar assustado.

Na ausência de profissionais da área de Psicologia, fazíamos o que a nossa formação acadêmica e o coração ditavam. A coordenação também buscava apoio dos órgão públicos. Seria necessário mais que isso - Políticas Públicas que agregassem crianças e adolescentes pela arte, pelo esporte, literatura, música e justiça. Crianças e jovens ficam pelas ruas sem rosto; alimentando-se da violência, da sexualidade não orientada, das canções que desarmonizam as ondas cerebrais, na cultura da morte. A escola sente-se impotente diante da complexidade de seres tão carentes, mentes intranquilas, vivendo nas desigualdades da estrutura social brasileira.

Alguns já morreram sem saber o que é ser adulto. Sombra diáfana - a nossa luz não se infiltra na alma, não se expande. Mazelas do mundo explodem na escola. No grupo, tem seu momento de afirmação, de voz e vez, detonando ódio e lágrimas de si próprio.

Abraço em prece, a comunidade de Suzano.

Por meio das reportagens observei a estrutura, a conservação da Escola Raul Brasil, os depoimentos de alunos e pude sentir uma comunidade com diálogo, competência, Projetos Educacionais, estilo acolhedor e agora, com a raça do recomeçar no solo árido da angustia coletiva, no coração esgarçado.

Que a equipe possa catar os cacos e com eles escrever a palavra ESPERANÇA do verbo Esperançar.

 

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