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'O câncer não é a morte, é o recomeço'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Arquivo pessoal
Renata com os filhos Renato e João, que, para dar força à mãe em quimioterapia, também rasparam a cabeça

Foi após a descoberta de um caroço no seio durante o banho que a vida de Renata Franzoloso Rodrigues saiu do "piloto automático". Diagnosticada com câncer de mama há 4 anos, a, até então, estilista vivia em função do emprego e da rotina agitada na Capital, sem horários até mesmo para almoço. Decidida a lutar com todas as suas armas contra a doença, ela se reinventou, mudou de profissão e de cidade e até ganhou mais estilo e autoconfiança. Assim como ela, o advogado Carlos Braga também superou o câncer e, ao invés de negar a doença, pesquisou tanto sobre o assunto que virou especialista e ministra palestras sobre o tema.

Amanhã, é comemorado Dia Mundial de Combate ao Câncer. A doença, que antes era quase como uma sentença de morte e cujo nome era até evitado de ser pronunciado pelas antigas gerações (quem nunca ouviu um parente mais velho se referir ao câncer como a "doença ruim"?), tem cada dia mais tratamento e, assim, coleciona histórias de luta e de superação.

"O que, antes, significava a morte, é o recomeço. O câncer me deu uma vida muito mais interessante. Aprendi a olhar para a minha essência e a me amar sem cabelão ou corpão", conta Renata, que fez um ensaio fotográfico após a batalha.

Aos 44 anos, livre da doença e morando em Bauru, ela deu asas para a paixão de cozinhar e se tornou personal chef. Hoje, Renata comanda seu próprio horário e também montou um bistrô.

"Estou reescrevendo a minha história, com outros valores. Aprendi a parar para olhar as pequenas coisas da natureza e a contemplar a vida", completa.

A transformação, no entanto, foi árdua, conta ela. Quando recebeu o diagnóstico do câncer agressivo na mama direita, a aceitação não ocorreu "de primeira". Com apoio da equipe médica, contudo, ela percebeu que havia muito mais chances de viver do que o contrário em virtude da evolução da medicina.

O tratamento durou cerca de um ano ao todo, incluindo as sessões de quimioterapia, rádio e cirurgia. "Também recebi muito apoio da família e isso foi extremamente importante. Meus filhos, Renato e João, chegaram a raspar o cabelo para me apoiar quando comecei a quimioterapia", conta.

No início, ela chegou a ser orientada pela família sobre o uso da peruca para que não sofresse com olhares na rua. "Mas eu não consegui, aquilo não era eu. Foi aí que passei a lidar melhor. O que eu queria mesmo era andar sem peruca e chocar as pessoas. Mostrar que há vida além do câncer", lembra.

E ela realmente mostrou. Tanto que, hoje, é um dos vários exemplos de que a doença não é uma sentença de morte, como antigamente.

ATÉ LIVRO

Samantha Ciuffa
Após o diagnóstico, o advogado Carlos Braga parou completamente sua rotina e passou a estudar sobre o câncer; hoje, é especialista na área de ozonioterapia, autor de um livro sobre o tema e ministra palestras

Um câncer no esôfago também foi o estopim para que o advogado Carlos Eduardo Braga, hoje com 52 anos, transformasse completamente sua vida. Quando foi diagnosticado, aos 46 anos, ele parou completamente sua rotina e passou a estudar sobre a doença. Hoje, Carlos tem pós-graduação na área de ozonioterapia, é autor de um livro sobre o tema, virou referência no assunto e ministra, constantemente, palestras em vários locais.

Ele conta que percebeu que havia algo errado com sua garganta. O diagnóstico veio rápido: câncer no esôfago, não operável, com comprometimento do pulmão e traqueia.

"Eu fiquei em choque, porque o câncer sempre foi associado à morte. Na verdade, chegaram a dar um prognóstico de um ano para minha família. Parei imediatamente com todas as minhas atividades e repensei a vida", conta Braga.

O tratamento com quimioterapia e radioterapia durou seis meses. "Tive infecção grave, fiquei dez dias internado e perdi um quilo a cada dia. Tomei 98 doses de morfina, uma a cada 2 horas, mas consegui melhorar".

Incentivado por um amigo nutricionista, ele passou a estudar sobre a alimentação e suplementação e conheceu a ozonioterapia - técnica que usa o ozônio, uma molécula altamente reativa e fugaz, dentro de uma mistura dos gases oxigênio e ozônio, para fins terapêuticos.

"Minha área é direito empresarial, nunca imaginei que fosse partir para a ozonioterapia", cita. "Muita gente amaldiçoa a doença e se entrega, mas quem aceita, luta e muda para continuar vivendo tem até mais chance, porque faz parte da cura o desejo de ser curado. O câncer não é mais sentença de morte em muitos casos. Hoje, inclusive, é classificamos como doença crônica", finaliza Braga, que além de advogado, divide o tempo com trabalhos para o Centro de Apoio a Pessoas com Câncer de Bauru.

SINO DA VITÓRIA

Em alusão ao Dia Mundial de Combate ao Câncer, o Hospital Unimed Bauru irá inaugurar, em cerimônia na manhã desta segunda-feira, no seu Setor de Radioterapia, o Sino da Vitória.

Trata-se de uma ação de humanização que tem por objetivo dar ao paciente a oportunidade de celebrar o fim de seu tratamento tocando um sino e lendo uma frase motivacional que estará em uma placa, tudo isso acompanhado de seus familiares e equipe da clínica de radioterapia.

O projeto tem como missão também levar esperança para os pacientes que iniciarão o tratamento contra o câncer e desmistificar a associação da doença com o final da vida. A prática já é comum em hospitais americanos e em alguns brasileiros.

HE: 60 novos casos da doença por mês em Bauru

Douglas Reis
Apesar do aumento de casos, pacientes têm vivido mais, diz oncologista Marcelo Antunes

Unidade referência no tratamento de câncer em Bauru, o Hospital Estadual (HE) registra em média 60 novos casos da doença por mês. "É um número que cresceu aproximadamente 20% nos últimos 5 anos. Temos, hoje, cerca de 1,2 mil pacientes oncológicos em tratamento no Hospital Estadual", afirma o médico oncologista com experiência internacional Marcelo Antunes, que é supervisor geral da oncologia no HE.

Ele confirma, no entanto, que os pacientes estão vivendo mais por causa da evolução nos tratamentos. "Tem gente em tratamento contra o câncer há dez anos", pontua. A média de sobrevida de cânceres como intestino e pulmão foi elevada de 2 a 3 anos para 5 a 7 anos.

"O Outubro Rosa e o Novembro Azul ajudaram a combater o preconceito. Antes, a pessoa ouvia falar em câncer e já associava à morte. Hoje, isso mudou. Nos Estados Unidos, por exemplo, é uma doença vista como outra qualquer, como a cardíaca. Temos que aprender a conviver com o câncer. Afinal, daqui a alguns anos, em uma família de cinco pessoas, uma poderá ter", destaca o médico, que também é diretor do Nair Antunes Instituto do Câncer.

MAIS FREQUENTES

Segundo ele, o câncer que mais acomete homens é o de próstata e nas mulheres é o de mama. Na sequência, seguem entre os tipos mais comuns o câncer de intestino, pulmão, útero e estômago.

Segunda doença que mais mata no mundo, o câncer tem incidência de 15 milhões de casos por ano no mundo. E, até 2030, acredita-se que essa incidência possa aumentar para 24 milhões.

"Os hábitos modernos relacionados à alimentação de embutidos e ao aumento da exposição aos produtos tóxicos fazem com que os casos aumentem. Metade dos casos está relacionado a isso e ao consumo de bebidas alcoólicas, cigarro e obesidade", cita o médico.

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