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'A cegueira foi uma oportunidade de conhecer a vida de outra forma'

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
Além da carreira musical, Jorge Herrera Lopes, cujo nome artístico é Rodrigo, aprendeu informática e passou a dar aulas em Bauru

Oportunidade. Esta é a palavra escolhida por Jorge Herrera Lopes, de 52 anos, para definir a deficiência visual que o acometeu aos 6 anos após uma infecção no fundo do olho que causou um atrofiamento do nervo óptico. O obstáculo iniciou uma bela história de superação e aceitação. Depois de ter uma dupla sertaneja com outro cego, nos anos 80, e levar a música como seu principal trabalho por 27 anos, o bauruense aprendeu informática e, hoje, é professor. Mesmo assim, ele, cujo nome artístico é Rodrigo, não deixou o dom de lado e canta, atualmente, no Hospital de Base em um projeto voluntário do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac).

"Eu acho que a vida é feita de oportunidades. E a perda da visão, mais do que um lamento, foi uma oportunidade de conhecer a vida de uma outra forma. Eu tive acesso a coisas que, quando a gente enxerga, não dá muita importância. Você se apega às aparências e não ao que as coisas são de verdade. Não enxergando, eu tive a oportunidade de dar mais valor à essência do que à embalagem. Jamais perdi a fé em Deus e sempre acreditei que tudo tem uma razão de ser".

Foi a fé espírita que o aproximou das obras do Ceac, onde, há 13 anos, participa como voluntário do projeto Irmã Scheilla, "os amarelinhos". Todas as terças-feiras de manhã, Rodrigo (como prefere ser chamado) canta das 8h às 9h em uma casa de apoio localizada no Hospital de Base. "Toco músicas sertanejas, que sempre cantei na minha carreira. A música toca o coração das pessoas. Elas elogiam, agradecem e se emocionam, até porque muitas delas estão passando por um momento complicado com seus entes queridos. Encontro na alegria que música traz uma forma de ajudar essas pessoas", diz.

ACESSIBILIDADE

Mas a música, mesmo sendo uma paixão, tornou-se um hobbie a partir de 2007, quando Rodrigo conheceu a informática. "Comecei a fazer o curso no Lar Escola Santa Luzia para Cegos e, depois, fiz mais um curso no Senai, em Jaú. Em 2007 mesmo, comecei a dar aulas no Lar Escola, onde sou professor até hoje", diz. "Nessa área, temos que estar em constante atualização, sempre aprendendo, porque tudo está sempre mudando", completa.

O computador e o smartphone de Rodrigo são adaptados. Ele conta que, atualmente, os cegos já têm 90% de autonomia no trato com a informática. "Em computadores comuns, utilizamos um software de leitura eletrônica e não usamos o mouse, mas apenas o teclado para dar os comandos. Nossa dificuldade, hoje, é mais com gráficos e imagens. Nunca pensei que eu poderia ter acesso às notícias por mim mesmo, sem alguém ter que ler para mim", comenta.

ADAPTAÇÃO

A cegueira - que tem o mês de abril como momento para discussão e prevenção - não foi encarado por Rodrigo como empecilho para que conquistasse suas realizações. "Quando era mais novo, não sentia diferenças. Criança se acostuma de forma mais fácil. Foi mais na adolescência que comecei a ter algumas dificuldades, mas nunca deixei de fazer o que eu queria. Cantei com um outro cego na dupla Paulo César e Rodrigo de 1983 a 1987 e, depois, fiz carreira solo até 2010. Encontrei minha esposa no Lar Escola e estamos casados há 7 anos. Ela também é deficiente visual e moramos só nós dois em nossa casa", diz.

Além de se realizar na vida pessoal, com o trabalho como voluntário, Rodrigo espera poder ajudar o projeto ainda por muitos anos. "Com a música, quero poder devolver para a vida, um pouquinho da alegria que ela me dá", finaliza.

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