Tribuna do Leitor

Erros grotescos de português

Edson de Oliveira
| Tempo de leitura: 2 min

Na edição do Jornal Nacional (Globo) de 22 de março passado, a repórter - cujo nome não citarei - discorrendo sobre a prisão de Temer e seus asseclas, cometeu dois imperdoáveis erros de português que não podem passar despercebidos por quem tenha, ainda que grotescamente, conhecimento da língua portuguesa. Ainda mais por tratar-se de quem os cometeu.

Sabemos que as normas que envolvem o padrão culto da língua portuguesa contemporânea, são de difícil assimilação. Todavia, é imperdoável que alguém que exerça uma função tão nobre, em frequente contato com o público ouvinte, desconheça essas normas, incorrendo, consequente e recorrentemente, em erros que jamais deveriam acontecer, em razão de sua abrangência, uma vez que dizem que o Jornal Nacional da rede Globo é visto por trinta e três milhões de pessoas, número, portanto, maior do que a população de muitos países.

Pois bem, esclareçamos os erros.

1º) O verbo fazer no sentido de tempo transcorrido é impessoal e, consequentemente, não se flexiona com o sujeito, sendo, portanto, sempre usado na terceira pessoa do singular. Ex: Faz três meses que não o vejo. Faz dez anos que ela se casou. Faz duas horas que o ônibus partiu.

A repórter, desconhecedora dessa norma, e despreparada para a função, disse claramente: Fazem dois meses ......

2º) Os nomes femininos de coisas, usados em sentido figurado, em referência a pessoas, passam a sobrecomum, no masculino. Assim sendo, se picareta, feminino, se aplica a uma pessoa, usamos: esse homem (masculino) é um picareta, essa mulher (feminino) é um picareta.

Ele é um laranja. Ela é um laranja. Ele é um mala sem alça. Ela é um mala sem alça. Seu namorado é um nó cego. Sua namorada é um nó cego. Ele é um dedo duro dentro da classe. Ela é um dedo duro dentro da classe.

Logo em seguida e sobre o mesmo assunto ela disse que a fulana de tal ligada aos fatos era apenas uma laranja.

Tais afirmações seriam cômicas se não fossem trágicas.

Dominar um idioma tem que ser obrigação daqueles que estão intimamente ligados a ele e que, principalmente, sobrevivem dele exercendo-o publicamente; o chamado português escorreito.

Sem mais comentários, será que fomos suficientemente claro?

Isso só vem reforçar a tese de que o ensino no Brasil foi, literalmente, jogado no lixo, por aqueles a quem esse fato favorecia. Pois é notório, mas não muito público que é mais fácil administrar um povo cego culturalmente do que um povo inteligente. Aquele é mais fácil de ser trabalhado.

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