Tribuna do Leitor

De alma lavada

Maestro Alexei Lisounenko
| Tempo de leitura: 3 min

Após duas semanas de tensão, onde a cultura do estado de São Paulo foi parar na UTI, com o anúncio de corte no Projeto Guri, que iria desencadear seu fechamento, semelhante ao que ocorreu com as Oficinas Culturais de São Paulo, e ao anúncio do corte das verbas da cultura em 23%, o governador do Estado, João Doria, percebendo a grande reação das classes artísticas, e principalmente da população em geral, que se mobilizou como uma avalanche contra estes cortes, sabiamente, retrocedeu e rapidamente veio a público, nas duas ocasiões citadas, afirmar que não haveria corte na pasta da cultura.

A cultura não se restringe aos artistas que fazem dela seu trabalho e vida, ela abarca uma infinidade de áreas do conhecimento, dos comportamentos da nossa sociedade de ontem e hoje, ela é o resultado de tudo o que foi e também do que será de nosso mundo, resumindo, a cultura é a nossa identidade, é o nosso ser, estar, viver. Nós somos a cultura e ela mostra ao mundo quem nós somos.

Trabalhando com cultura sempre ouvi, e continuo ouvindo, que a cultura é supérflua, e quando a economia aperta, ela é a primeira a ser cortada do orçamento das pessoas. De fato, isso ainda acontece, mas atualmente percebo uma mudança nesse comportamento. Quando converso a respeito do valor da cultura eu sempre pergunto: - Quantas pessoas conhecemos que não têm um aparelho de som no carro? Quantas pessoas conhecemos que não têm um aplicativo de música no celular? Quantas pessoas conhecemos que não gostam e não ouvem música diariamente? Hoje, as pessoas estão mais cientes dos benefícios de ouvir e praticar música, e grande parte não abre mão dela.

A atividade artística tem efeito terapêutico, ela ocupa o tempo, a mente, e dá perspectivas às pessoas. Vejamos o Projeto Guri, mais de 50.000 crianças, de 6 a 18 anos, atendidas por ano, que aprendem música com profissionais qualificados e podem almejar uma profissão como músico em qualquer parte do mundo.

Mas até agora não expliquei o "de alma lavada". Acabei de chegar do Teatro Municipal de Bauru (10/04), onde assisti a abertura da temporada 2019 da Banda Sinfônica de Bauru. É muito saudável e gratificante, no meio da semana, você poder parar tudo, sentar-se numa poltrona, esquecer de todos problemas e preocupações, e assistir a um espetáculo dado por jovens músicos, muito bem conduzidos pelo excelente maestro Devanildo Balmant. Falando como músico, há anos, nossas autoridades políticas de Bauru, e do Brasil em geral, não têm a mínima noção do tesouro que têm em suas mãos. Em Bauru tem banda, tem orquestra, tem ballet, tem hip hop, tem teatro, tem poetas, escritores, professores, tem material humano de qualidade e em abundância para produzir e promover cultura feita com muita qualidade. Não adianta apenas criar o projeto, tem que cuidar, investir, trabalhar e zelar. O que nos falta ainda, são os "ourives políticos", pessoas que permitam que estes diamantes brutos, nossos artistas, possam brilhar mais ainda.

Falta a nossos políticos aprenderem com o visionário, atento e eficaz governador João Doria, que não mudou sua opinião por causa do valor da cultura, mas sim por causa do valor que a nossa população paulista hoje dá à cultura. Parabéns mais uma vez a todos envolvidos nesta empolgante noite e ao público que lotou o nosso teatro municipal. #VemPraBanda!

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