Um regente de grandes sonhos
Maestro da Orquestra Sinfônica Municipal, Paulo Pereira almeja que Bauru tenha um grupo de excelência, que consiga viver de música na cidade. Porque é isso que os jovens que integram tanto a Orquestra quanto a Banda Sinfônica Municipal também desejam
| Douglas Reis |
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| Maestro Paulo Marcos Gomes Pereira: "Por mais dificuldades que a gente tenha, são poucas as cidades no Interior com uma banda, uma orquestra jovem com o modelo que a gente tem" |
Nascido e criado em Bauru, Paulo Marcos Gomes Pereira chegou a colocar um pezinho na economia - fez faculdade e tudo! -, mas foi na música que ele fincou os dois pés de verdade. Regente e trompetista formado pelo Conservatório de Tatuí (SP), Pereira deu os primeiros passos na música ainda criança, com 10 ou 11 anos, na banda da igreja, incentivado pelos pais, Manoel e Anita (in memorian). E, de lá para cá, foi se especializando. Regente da Orquestra Sinfônica Municipal desde a sua criação, em 2004, Paulo Pereira não esconde o brilho no olhar quando fala sobre o trabalho. Seu sonho? Que Bauru tenha um grupo de excelência e que consiga viver de música na cidade. Porque é isso que os jovens que integram tanto a Orquestra quanto a Banda Sinfônica Municipal também desejam.
JC - Como a música entrou na sua vida?
Paulo Marcos Gomes Pereira - Sou evangélico e, na igreja, desde pequeno, a gente é estimulado à música. Com 10, 11 anos comecei a tocar na banda da igreja, estimulado por meus pais, mas também porque eu sempre gostei de música. O primeiro instrumento que eu toquei chamava Sax Horn, que na banda faz a parte harmônica. Não é um instrumento melódico como a flauta, o clarinete, o trompete... Toquei muito tempo esse instrumento e, depois, passei para o trompete, que é meu instrumento de formação. Toco até hoje, estudo e desenvolvo todo o meu trabalho sobre o trompete.
JC - As igrejas fazem um trabalho importante no despertar dos jovens para música.
Pereira - Existe uma grande parcela de músicos profissionais nas orquestras que vieram das igrejas. Elas fazem um papel social importante na formação musical. E a música é uma ferramenta importante na formação intelectual do ser humano. Existem várias ferramentas, claro, mas a música é uma delas. É muito desprezada, especialmente em países de terceiro mundo, como o nosso.
| Quioshi Goto/JC Imagem |
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| Paulo Marcos Gomes Pereira durante ensaio da Orquestra Sinfônica Municipal, no Automóvel Clube, em abril de 2016 |
JC - Ainda é desprezada?
Pereira - No Brasil, houve avanços de décadas para cá, na formação musical. Principalmente pelos projetos sociais que entraram no cenário brasileiro. Hoje, a gente tem, em São Paulo, o Instituto Baccarelli, o Projeto Guri; na Bahia temos o Neojiba - que são os Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia; em vários Estados existem projetos de educação musical.
JC - Por aqui você cita algum?
Pereira - Temos o nosso, que é de formação. Lógico que não temos uma estrutura como um Baccarelli ou o Projeto Guri. Mas é importante e dá resultado positivo.
JC - Como foi o seu caminho pela música, da igreja ao trabalho que você realiza hoje?
Pereira - Minha formação acadêmica não é música. Fiz economia (risos). Também fiz especialização em educação. Paralelo a isso, sempre estudei música. Estudei trompete e regência no Conservatório de Tatuí.
| Arquivo pessoal |
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| Paulo Marcos Gomes Pereira em apresentação da Orquestra Sinfônica Municipal |
JC - Chegou a exercer a profissão de economista?
Pereira - Não.
JC - Por que você fez economia se o caminho mais natural era música?
Pereira - A música é um caminho difícil para você trabalhar profissionalmente. Então, na época, pensei: "Se não der nada certo na música pelo menos eu sou economista" (risos). O jovem músico, quando começa a formação, tem preocupação com isso.
JC - E também há pais que não incentivam esse caminho.
Pereira - Verdade. Trabalhar com música não é fácil. A gente não tem muitos grupos profissionais. Isso é um problema a médio prazo, principalmente no Estado de São Paulo. Hoje, existem vários projetos sociais que desenvolvem a formação musical. E esse pessoal está se especializando, se profissionalizando. Só que a gente vê um mercado restrito, principalmente na música erudita.
| Samantha Ciuffa |
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| Paulo Gomes Pereira, na abertura da Grand Expo, em agosto do ano passado |
JC - Você enfrentou resistência?
Pereira - Não. Meus pais me deixaram livre. Mas eu fui fazer economia (risos). E daí fiz concurso para a Prefeitura de Bauru para instrutor artístico, passei e comecei a trabalhar. Então, fazia faculdade de economia, Tatuí, trabalhava como instrutor artístico... Entrei na Orquestra Veritas, onde fiquei muito tempo. E hoje faço bastante trabalho com grupos em casamentos. É o que tem hoje no mercado.
JC - Orquestra como a nossa é mais um celeiro de talentos.
Pereira - Temos vários exemplos. Alunos que começaram com a gente, buscaram a especialização e foram embora. Temos ex-alunos ainda em formação na Universidade Federal de Brasília, na Universidade de Campinas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro... Mas também temos formados em São Paulo, em Curitiba e muitos outros lugares.
JC - O bauruense conhece o trabalho que é realizado pela Banda e pela Orquestra Municipal?
Pereira - Não. A maioria, não. O público que consome música instrumental e erudita é meio restrito.
JC - Falta educação musical ou é preconceito?
| Arquivo pessoal |
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| Paulo Marcos Gomes Pereira com a esposa, Priscila, e os filhos Pedro, de 12 anos, e Rafael, de 1 ano |
Pereira - Não digo preconceito. Falta divulgação, acho. Nos países europeus, há uma pequisa que indica que 3% da população consome música erudita. Num país como o nosso, acredito que seja ainda menor. Há um interesse crescente, mas ainda é baixo. Quando é uma orquestra grande, por exemplo, há uma divulgação maior e, consequentemente, público maior. Nós não temos a mesma exposição, até por conta de financiamento. O JC, os outros veículos de comunicação, divulgam, mas de maneira gratuita. É diferente quando há divulgação com aporte financeiro, com marketing forte. Mas a sementinha está aí. Hoje, temos vários projetos de formação musical na cidade. Temos a banda, a orquestra, o Projeto Guri, o da ABDA. Essa meninada tem pais, mães, tios, parentes que, de alguma forma, terão contato com a música instrumental e erudita. É através deles, dessa geração que está se formando agora, que as coisas vão mudar.
JC - Como foi sua trajetória na orquestra?
Pereira - Eu já trabalhava há vários anos como instrutor e participei da criação da Banda Municipal, ainda no governo Nilson Costa, há 17 anos. Dois anos depois, o Nilson Costa e o Sérgio Losnak, então secretário de Cultura, me convidaram para formar a orquestra e ficar à frente dela. E estou até hoje.
JC - Acredita que a orquestra pode crescer em Bauru?
Pereira - Claro. Nos faltam estrutura e dinheiro. Hoje, temos mais de 100 alunos entre banda e orquestra e mais uns 50 fazendo o cursinho preparatório. Se tivéssemos uma estrutura maior, buscando talentos, como ocorre em países como a China, por exemplo, a qualidade seria melhor e maior. Mas, para isso, é preciso envolver a sociedade. Só o poder público não dá conta. É preciso mais investimento.
| "A música é uma ferramenta importante na formação intelectual do ser humano, mas ainda é muito desprezada." Paulo Pereira |
JC - Qual seu projeto para a orquestra?
Pereira - Para formação, estamos no caminho certo. Tem muita gente trabalhando com música, se profissionalizando em escolas importantes do País. O que eu almejo? Que no futuro a gente tenha um grupo profissional. Que a gente consiga expandir nosso projeto, da banda e da orquestra, ter mais alunos, trabalhar formação e, lá na ponta, termos um grupo de excelência trabalhando com música, vivendo de música. Bauru tem condições. Especialmente se houver a união da sociedade em torno desse projeto. Bauru é uma cidade privilegiada em relação à música. Por mais dificuldades que a gente tenha, são poucas as cidades no Interior com uma banda e uma orquestra jovem com o modelo que a gente tem. Tanto que nossos jovens se destacam e trabalham em várias cidades da região. É preciso reconhecer e valorizar o que a gente tem.
PERFIL
Idade: 46 anos
Esposa: Priscila
Filhos: Pedro (12 anos) e Rafael (1 ano)
Pais: Manoel e Anita (in memoriam)
Time: Corinthians
Livro de cabeceira: Bíblia
Música: Uau... Tenho tantas. "Mas se fosse indicar, indicaria Bach. É o maior compositor de todos os tempos. Hoje, a música é tida como entretenimento. Você ouve para relaxar, se acalmar, esquecer da vida, dançar. Na época dos grandes compositores, a música tinha outra concepção, as pessoas buscavam informações sobre elas. Hoje, a música só tem de ser bela e a pessoa gostar. A música de Bach é difícil de ser entendida, mas é bela. Difícil, mas bela. E quando se fala em música, não tem isso de presta ou não presta. Cada um tem uma formação musical, que passa pelas mídias, pelos pais... Hoje a qualidade é baixa? É. Mas fruto de tudo o que a gente tem. O que precisamos é mostrar que não é só isso. Que ele pode conhecer outras coisas, como Bach, e gostar."
Hobby: Pescar
Palavra: Paciência
Nota 10: Para os projetos de formação de orquestra no Brasil
Nota 0: Para os desonestos.
Contato: "Não tenho WhatsApp nem Facebook. Já tive Face, mas desisti. É muita perda de tempo, muita picuinha, mimimi. Veja as últimas eleições, o tanto de briga em família (risos). Então, podem me procurar na sede da orquestra, na Estação. Todos os dias, das 14h às 17h30.
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