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Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A vida não é mais do que massa de modelar. Isso mesmo, dessas que fazem a alegria das crianças. Cabe aos nossos dedos o trabalho de manipulá-la em busca da forma desejada. E que desenho tem encantado os dedos do nosso tempo? Que modelo de vida está nascendo de nossas mãos? A imagem, então em modelagem, já nos mostra a cara. É assustadora.

Jamais deveríamos nos esquecer de que determinados valores não deveriam ser vendidos e, por consequência, comprados também não. A dignidade por exemplo.

Todavia para o Mercado, essa gigantesca caixa registradora, tudo é mercadoria, nada existe que não se possa vender. Seja o que for, tudo se vende com preço na etiqueta e facilidades no carnê. Até Deus é vendido, sob promessa de prosperidade, em programas de tevê e em falsos templos das muitas esquinas. Como tudo é mercadoria, entramos na onda e decidimos também comprar feito, até mesmo o que deveríamos pessoalmente fazer. A vida vendeu a alma por dinheiro.

Li em "Tópicos Utópicos", de Eduardo Giannetti, que, no mercado japonês, um tipo de serviço está sendo oferecido para aliviar a solidão dos idosos. Filhos contratam atores e lhes dão treinamento e informações para que visitem, em seu lugar, os pais nas casas de internação. Com um script ensaiado e recheado de situações anedóticas e de outras particularidades da família, os atores conseguem divertir, por algum tempo, os velhinhos, que agradecem o que se lhes parece um gesto de apreço filial.

Eis a confortável lógica da terceirização: o que não podemos ou não queremos, mandamos fazer. A vida corrida não nos permite visitar nossos pais? Nenhum problema, compramos feito, há quem o faça por nós. É muito triste, mas o Mercado agradece.

No Canadá, a empresa A. Breakup Shop oferece serviços para terminar relacionamentos amorosos. Por R$ 115,00, o procedimento é feito por ligação ou mensagem de texto. Tal comodidade evita o desgaste daquela conversa difícil e doída: " o problema não é você, o problema sou eu" e que, geralmente, termina num convite: "a gente pode ser amigos". Mais uma cômoda terceirização, agora para um solene pé na bunda. Serviço prestado, pagamento realizado, alívio. Que frieza! A que ponto chegamos! Nenhuma consideração pela pessoa que, na condição de coisa qualquer, é simplesmente descartada. O Mercado novamente agradece.

Em "Time is honey", Antonio Prata diz que poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. E nos adverte não se tratar de gosto, textura, qualidade, porque o capitalismo sabe que para vender, tudo bem feito precisa fazer. Sempre é ouro ouvir o Prata: "O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios.

Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro".

Estou me lembrando de muitas tardes desse tempo que não era dinheiro. No mais fundo de cada um de nós, ainda ressoa aquele cheiro quentinho que, de repente, invadia a casa toda e, chegava ao quintal, interrompendo as nossas traquinagens. Como esquecer o bolo da nossa avó?

O bolo industrializado pode ter todos os ingredientes possíveis, mas sempre lhe faltará um. Impossível terceirizar o carinho com que ela impregnava a massa com tanto amor. Há coisas que não combinam com dinheiro, não cabem na gaveta da caixa registradora, não deveriam estar nas prateleiras, simplesmente porque na alma estão. Estamos nos esquecendo disso.

É assustador.

 

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