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Profissionais 'superqualificados' têm dificuldades de retornar ao mercado

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Arquivo pessoal
Walter Fernandes é formado em Relações Públicas e desenvolve diversas funções, como a de coach
Lucimara Maiorali, de 44 anos, conta as dificuldades que teve, mesmo com currículo extenso

Formada em Sistemas de Informação, Lucimara Maiorali, de 44 anos, demorou sete meses para se recolocar no mercado de trabalho. Com um currículo extenso, ela se cansou de ouvir a recusa por parte das empresas, que temiam que a funcionária as deixasse tão logo surgisse algo melhor. O caso de Lucimara mostra que diploma universitário, pós-graduação e proficiência em vários idiomas podem ser, justamente, o empecilho para a contratação, quando a vaga exige menos capacitação.

Com um número grande de desempregados no Brasil - 12,7 milhões só em janeiro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua -, entender o que leva profissionais "sobrequalificados" a se candidatar a vagas abaixo dos seus currículos não é difícil. "Com a crise de 2014, houve um enxugamento de vagas ocupadas por profissionais qualificados. As empresas se reestruturaram e, quando voltaram a contratar, surgiram vagas de níveis mais baixos", diz o especialista em Estratégia Empresarial Breno Paquelet.

Lucimara é exemplo dessa realidade. Ela era coordenadora de qualidade de processos e produtos, em uma empresa de Bauru, mas houve corte de gastos. "Tive de voltar a fazer o mesmo do que quando possuía 19 anos", acrescenta.

Isso porque, até hoje, as vagas em aberto contemplam apenas o cargo de analista. "Durante as entrevistas, ouvia questões como 'Qual é a sua expectativa?', 'Você tem certeza de que quer voltar a ser analista?'. Mesmo convicta, afinal, precisava trabalhar, ninguém contratava", relata.

JÁ AS EMPRESAS...

Arquivo pessoal
Walter Fernandes dos Santos Júnior é formado em Relações Públicas e desenvolve diversas funções, como a de coach

Para as empresas, no entanto, as perguntas mostram uma preocupação especial com este profissional.

Segundo Fernando Mantovani, que é diretor-geral de uma empresa de recrutamento, o empregador quer entender se a vaga é uma medida desesperada do candidato, que pedirá demissão assim que surgir uma oportunidade melhor, ou se existe consistência em sua decisão.

"Quem está recrutando quer o funcionário por um tempo. Se tenho trabalho para o Robin e vou oferecer para o Batman, na hora que der problema, o Batman pode ir embora", constata.

Para convencer o recrutador, Mantovani aconselha o candidato a argumentar. "Tem de explicar por que é uma decisão de médio prazo, o quanto você pensou no assunto e como está estruturado para isso", frisa.

Também costuma ser comum a preocupação de que o novo contratado não permaneça motivado em um cargo que exige desafios os quais ele já vivenciou na carreira. "Uma pessoa 'superqualificada' pode acabar sendo liderada por um gestor júnior, que, muitas vezes, ele não respeita por se achar superior", explica Paquelet.

Por mais tentador que possa parecer "driblar" alguns pontos no currículo, é melhor regular a ênfase a determinadas posições do que, simplesmente, omiti-las. "Na entrevista, deve-se mostrar disposição para recomeçar", aconselha.

O RECOMEÇO

Para a coach e especialista em Carreiras, Paula Dias, uma alternativa para quem não encontra vaga é fazer uma análise de perfil e carreira para identificar outras coisas que é capaz de fazer.

Isso pode estimular quem cansou de procurar emprego. De acordo com a PNAD Contínua, de 2014 até setembro de 2018, mais de 1,27 milhão de trabalhadores, que estudou por 10 anos ou mais, desistiu de achar vaga que caiba nos seu currículo.

Para promover uma mudança na carreira, o conhecimento adquirido pode ser usado para atuar em outras áreas, como dar consultoria e aulas, se tornar freelancer ou criar projetos.

A alternativa foi seguida por Walter Fernandes dos Santos Júnior, de 54 anos. Formado em Relações Públicas pela Unesp, ele perdeu o emprego há um ano e meio, momento em que resolveu morar em Bauru, onde tem parentes.

O currículo de Walter é bastante extenso. Ele é especialista em Investimento Social Privado. Inclusive, implantou a área de Captação de Recursos e Projetos, no Hospital de Base de São José do Rio Preto. 

Atualmente, Walter dá consultoria para o Hospital Beneficência Portuguesa, em Ribeirão Preto. "Minha esperança é ser contratado pela empresa para a qual presto serviço. Além disso, participo de outros dois processos seletivos", narra.

 

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