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Cresce diabetes e lar escola registra fila de pessoas que perderam visão

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Lar Escola Santa Luzia para Cegos completa 50 anos e foca na ampliação de atendimentos

Malavolta Jr.
Nilce Regina Canavesi

Prestes a completar 50 anos de atividades em Bauru, o Lar Escola Santa Luzia Para Cegos enfrenta um novo desafio: ampliar seu atendimento. Isto porque o número de diabéticos, que hoje representa maioria dos atendidos pela unidade, tem crescido de forma exponencial em Bauru e todo o País. E a entidade, que é a única com referência neste tipo de serviço no município, registra fila de espera de até 40 pessoas atualmente. São pretendentes que perderam mais da metade ou 100% da visão em virtude do diabetes ou não, mas que procuram ajuda para conseguir a autonomia de volta e para se reinventarem aprendendo novos ofícios com ajuda do Lar.

"A maioria dos nossos alunos ficou cega em decorrência do diabetes. E, de 2002 para cá, houve aumento da procura pelo Lar. Atendíamos só de manhã e tivemos que estender para tarde também. Nos últimos dez anos, a fila de espera triplicou. Antes não passava de 10 pessoas", comenta a presidente do Lar Escola Santa Luzia Para Cegos, Nilce Regina Canavesi.

Na tentativa de contemplar a demanda, a entidade, que não tem fins lucrativos e é conveniada com a prefeitura, tem encaixado algumas pessoas da fila uma vez por semana em algum tipo de serviço. 

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Jorge Eduardo Queiroz ficou cego e passou meses na fila 

"Já é uma forma de ajudar. Cada aluno tem seu tempo. Alguns conseguem dominar as atividades e se formam em seis meses, mas muitos levam anos. O diabetes tira a sensibilidade da ponta dos dedos, o que dificulta o aprendizado do método braile", detalha Nilce.

FOCO NA EXPANSÃO 

Na entidade, os alunos também recebem atendimento psicossocial, terapia ocupacional, fisioterapia e participam de grupos de coral, dança e teatro. Eles também aprendem o empalhamento de cadeiras em oficina pedagógica.

Jorge Eduardo Queiroz, de 58 anos, ficou meses na fila à espera da vaga na entidade. Há seis anos, ele perdeu completamente a visão em decorrência de problemas de pressão alta. "Eu era eletricista e viajava muito, não cuidava da alimentação mesmo com a pressão alta. Até que um dia passei mal e meus rins paralisaram, depois fui perdendo a visão. E passei a depender de todos para tudo. Mas no Lar consegui melhorar minha autonomia. E ganhei uma nova profissão com o empalhamento de cadeiras", conta Jorge.

Com foco na alta demanda, a entidade tem apostado na expansão e construção de uma sede própria e maior (leia mais nesta página). Hoje, o prédio administrativo fica na quadra 11 da rua Gerson França e o prédio escolar fica na quadra 24 da avenida Castelo Branco. Os alunos, a maioria entre 20 e 45 anos, são atendidos de segunda a sexta, das 8h às 17h e recebem lanches em ambos períodos.

Nas últimas semanas, o Lar Escola ampliou sua parceria com a prefeitura para atender quatro crianças, entre 2 e 6 anos, que são cegas totais e estão na rede de ensino da cidade.

DIABETES EM ALTA

Presidente da Associação dos Diabéticos de Bauru, Rita Kátia Oliveira confirma que os casos de diabetes que resultam em cegueira aumentaram na cidade nos últimos anos.

"Por ser uma doença silenciosa, a pessoa só descobre quando já está com retinopatia. Nos testes rápidos que fazemos pela cidade já chegamos a mandar pessoas direto para o hospital de tão alta a glicemia", comenta. "Entre crianças também tem acontecido. São crianças que já tinham a predisposição para a doença e a desenvolvem em decorrência de fatores emocionais, como a perda de alguém da família ou situação de estresse extremo, como um ladrão em casa, por exemplo", cita Rita.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, de 2000 a 2025, o número de diabéticos no mundo saltará de 177 milhões para 350 milhões. No Brasil, a estimativa é de que os números atuais de 7,3 milhões de diabéticos saltem para 17,6 milhões.

"40% dos pacientes diabéticos sofrem com problemas oftalmológicos. A cegueira é 25 vezes mais comum em diabéticos do que em não diabéticos. Também há um estudo que diz que os diabéticos têm 40% a mais de chance de ter glaucoma e 60% a mais de chance de ter catarata ao longo da vida", comenta a médica endocrinologista Juliana Zenebra.

Comum em 90% dos pacientes, o diabetes tipo 2 é decorrente do sedentarismo, obesidade, má alimentação e, em mulheres, mais presentes nas com ovário policísticos. A retinopatia é uma das complicações crônicas da doença.

"O controle da hipertensão, do colesterol e da glicemia são essenciais para retardar o aparecimento da retinopatia, que é a principal causa da cegueira do diabético. Evitar alimentos com alto teor de gordura e carboidratos, além de praticar atividades físicas com frequência e o não ao tabagismo são atitudes que ajudam", finaliza a médica, também diretora clínica do Ambulatório Médico de Especialidades (AME). 

Jantar do cinquentenário também vai arrecadar fundos à instituição

Único e com serviço essencial, O Lar Escola Santa Luzia Para Cegos promoverá no dia 24 de abril, às 20h, no Buffet Montavani, seu "Jantar do Cinquentenário". O objetivo da ação, além de comemorar o aniversário e promover a interação entre alunos, ex-alunos e a sociedade, é arrecadar fundos para a instituição, que não possui fins lucrativos e depende de verba da prefeitura e doações para funcionar.

"Infelizmente, é difícil não fecharmos as contas no vermelho, mesmo com as parcerias", cita Nilce. "Mas nossa missão é, sobretudo, comemorar a entidade e mostrar que é possível conviver bem com a cegueira", completa. 

Os convites custam R$ 35,00 e dão direito ao jantar com pernil à mineira, arroz branco, tutu de feijão, ovo frito e couve mineira. Os ingressos podem ser adquiridos na própria entidade, na Sapataria Cirino (quadra 11 da Castelo Branco) e General's Bar (quadra 10 da rua Monsenhor Claro). Haverá apresentação de coral dos cegos, do grupo "Olhos Dançantes" e música com voz e violão também de alunos do Lar. O Buffet Mantovani fica na avenida Elias Miguel Maluf, 1-25.

50 anos

Fundada na década de 60, a entidade antes se chamava Apite e funcionava como um lar para até 20 pessoas com cegueira. A primeira sede era onde hoje fica o prédio administrativo, na quadra 11 da Gerson França. Lá, os cegos confeccionavam vassouras e espanador, mas a verba não salvou a entidade de uma crise financeira. Em 1969, o local teve as dívidas saldadas com ajuda de um grupo de empresários unidos por Aldire Pereira Guedes e foi transformado em escola. Em 2002, a unidade do Lar Escola Santa Luzia Para Cegos na avenida Castelo Branco foi inaugurada e o serviço ampliado. Hoje, o local é mantido com verba de convênio com a prefeitura e com ajuda da Associação da Mulher Unimed. O Lions de Bauru também é parceiro da entidade. O Lions, inclusive, é o doador de um terreno de 3 mil metros quadrados no Jardim Redentor. O lote deve ser vendido pela entidade e a verba destinada para a construção da nova sede no Lar, na rua Gustavo Maciel com a Marcondes Salgado, terreno que já é do Lar. "Os trâmites para que tudo saia do papel está em andamento. Esperamos para este ano ainda. Se Deus Quiser", cita Nilce, presidente do Lar há 38 anos.

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