Ah, os pseudo liberais... Liberalismo não é o mesmo que reacionarismo (às vezes até colidem) e menos ainda que intolerância à oposição: surpreendente o artigo de opinião de Pedro Grava Zanotelli (13/04/19). Não fosse pela qualidade de quem ali escreve, seria o caso de deixar os equívocos de lado, mas para alguém que se anuncia como "ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas", se torna inevitável reparar.
Não se pode pressupor que comportamento indecoroso seja exclusividade ou monopólio de oposição, sobretudo quando temos o maior exemplo diário partindo do Planalto e da família presidencial, nem se pode olvidar que indecorosa também a postura do ministro Guedes nesta ocasião, que também não se ateve ao aspecto técnico, adentrando não poucas vezes no político e responsabilizando "x" ou "y" por "tal" ou "tal situação", assim como pela postura agressiva e reativa.
A perda de compostura não é unilateral. Lá se vão os tempos em que presidentes, ministros e demais autoridades compreendiam (ainda que com não módica imperfeição) os protocolos e posturas necessários ao cargo: me recordo do ministro Malan, respondendo com alto nível e autocontrole provocação indevida de... Aloísio Mercadante! Tempos em que ministros ainda tinham mínima noção de postura de ministro ao serem nomeados ministros. Mas parece que a animalização se tornou natural no trato hoje em dia. Não só é tolerada como é defendia, sobretudo se oriunda da parte do grupo de quem se tem comprometimento ou simpatia.
O ministro errou também, senhor Pedro - e seu erro é ainda mais grave. Aliás, mais sério ainda é ver todo um grupo ministerial em que, com exceção dos medalhões Moro e Marcos Pontes, parece que para fazer parte é preciso possuir um certo grau de truculência.
Infelizmente o mercado entende pouco de Política, e os políticos, alguns confessos, entendem pouco do mercado: o descobrir por parte deste de que o atendimento de seus anseios depende daquela que tanto demonizaram, a política, o tem desanimado. Lhe desanima notar ser ineficaz e equivocada a ideia pueril comprada no último pleito de que alguém simplesmente "dar um murro na mesa e pronto" faria milagrosamente as coisas funcionarem e que a política se tornaria desnecessária. O notar um estado intervencionista (pelo presidente se ver mais preocupado com reputação e 'likes' que com o cumprimento de uma promessa de um Estado mais liberal e de não-intervencionismo) também desanima o mercado.
Senhor Pedro, não é existência de oposição ou o comportamento parlamentar que desanima mercados, mas Executivos também sabem fazer esse papel muito bem. Veja: o mercado já vinha enfrentando altos e baixos antes mesmo de se iniciar o ano legislativo! A cada trapalhada, sobretudo do Executivo, o mercado oscila. Debitar tudo na conta de existência ou inconveniência de maneiras/etiqueta de parte da oposição é patético.
Além disso, pressupor que todo opositor à reforma é de esquerda é outra tolice. O próprio partido do presidente não engole muito que a população tenha de pagar pelo privilégio que foi usufruído por políticos, pelo judiciário e pelos militares. Muitos pensam que deveria a união buscar no STF a extinção de pensões militares sob a alegação de que não são direito e sim "privilégio" adquirido, assim como deveria se sanar os déficits aumentando as alíquotas dos que mais se beneficiaram, bem como implementar medidas fiscais de arrecadação para cobrir os rombos - tudo para não enviar a conta à população que menos usufruiu. Não é só gente de "esquerda" que se opõe à previdência e que prefere medidas como as que elenquei. E dos de esquerda quase ninguém é remanescente do período da luta armada.
Ademais, Eduardo Jorge não concedeu entrevista a Felipe Moura e nesta ocasião não chamou Dilma de "mentirosa". Moura publicou excerto de entrevista de 3 anos antes (07/2014) de Jorge a Bruno Torturra - e o termo "mentirosa" na matéria é ilação de Moura, não de Jorge. Jornalistas, ex-jornalistas e sobretudo ex-presidentes de "ordens de velhos jornalistas" não podem cometer erros grosseiros desta natureza.
Senhor Zanotelli, precisa não ficar 1964 ou pensar que tudo o que s discordantes fazem ou pensam hoje seja com a mente em 1964, primeiro por estarmos em 2019 (e a oposição saber - o governo não), segundo por, assim como Moura não ter compreendido o que Eduardo disse sobre aqueles anos, nem sobre o que disse em tal entrevista de 2014 (e não 2017, como pensou): "ditadura" pelo que Jorge e Dilma lutaram não é a da acepção corrente atual de governo autoritário-repressiva e/ou estabelecida mediante violação constitucional (que repudio), como a civil-militar brasileira ou a de Maduro. Ditadura é termo que tem historicidade e significado distinto em cada época. Ditadura para os romanos tinha um significado, diferente de ditadura na acepção medieval, da de sentido bonapartista, da totalitária, etc. Cada época emprega tal termo, em geral atribuindo cunho negativo e algumas vezes positivo. Lutaram não por esta no sentido jurídico usual atual e sim pela do conceito de Marx, para quem todos (!) os governos eram ditaduras, pois domínio de uma classe (seja burguesa, seja proletária, seja militar, seja de uma classe política qualquer) sobre as outras, embora nas experiências práticas frequentemente umas acabem desembocando nas outras, sejam em regimes autoritários de esquerda ou de direita. Antecipo não ser entusiasta de ditaduras nem no sentido comum atual (de governos autoritários/repressores de esquerda ou de direita) nem do de predomínio de uma classe sobre outra, mas que a um jornalista cabe resgatar que a acepção dos termos é distinta, é imperdoável, assim como desmerecer o papel e suma importância do papel do parlamento (tanto da situação, e principalmente da oposição), sobretudo quanto também legitimamente eleito e com a mesma finalidade: defender o povo (e lembramos que nem sempre os interesses dos "mercados" coincidem com os destes).
Discordo muito de certas posições pessoais de vários parlamentares, da situação e da oposição, mas reconheço o papel crucial que exercem pela democracia, para que de fato não sejamos uma ditadura, nem no sentido de autoritarismo, nem no sentido do predomínio de grupos, seja de revolucionários pelo proletariado, seja de grupos de interesse (de classe, políticos ou de mercado). Quem não compreende Marx (e me oponho por ter lido) e pretende parecer liberal deve no mínimo ler Montesquieu, e entender os papeis dos poderes e o valor das oposições.
Que não se confunda reacionarismo com liberalismo. Um liberal defende e respeita o direito à oposição ainda quando não concorda com suas posições. Já dizia Carlos Lacerda (rei da oposição, inclusive depois aos militares) que esta é fundamental, pois o preço da liberdade é a eterna vigilância.