Ao ler o excelente texto do jornalista Zarcillo Barbosa "Quem tem medo de filosofia?" (JC de domingo passado), me lembrei imediatamente de um texto e de um lugar que conheci, em Berlim. E fiquei a refletir (porque isso ainda me é permitido), o quanto a história se repete, pervertendo muitas vezes o conceito de cultura, de direito, de democracia.
O texto (aqui resumido), trata-se de um poema de Bertolt Brecht: "General, teu tanque é um carro poderoso, mas tem um defeito: precisa de um motorista. General, teu bombardeiro é poderoso. Ele voa mais veloz que um vendaval. Mas tem um defeito: Precisa de um piloto. General, o homem é muito útil. Ele pode voar e pode matar. Mas tem um defeito: pode pensar." Certamente esse é o maior medo da classe dominante: o medo do homem que pensa.
O lugar, trata-se de um monumento criado na Bebelplatz (antiga Opernplatz), praça localizada em frente a universidade de Humboldt, em Berlin (de onde saíram 29 ganhadores de Premio Nobel). Nesse lugar, em 1933, liderados por discursos inflamados de militares nazistas, estudantes ensandecidos, no ato intitulado "Ação Contra o Espírito Não Alemão", incineraram cerca de 20 mil livros, de escritores e filósofos como Sigmund Freud, Karl Marx, Thomas Mann, Albert Einstein, Franz Kafka, Emil Ludwig, Bertolt Brecht, Marcel Proust, Emile Zola, Máximo Gorki, H. G. Wells e Ernest Hemingway. Estava decretado o fim da diversidade de pensamento, do questionamento, do salutar hábito de refletir. A Alemanha voltava à escuridão.
Hoje, no local, na praça da universidade, existe um vidro transparente de cerca de 1m² através do qual se veem, no subsolo, estantes vazias, representando o conhecimento perdido. Próximo, há uma placa com uma frase extraída da obra Almansor, de um conhecido poeta romântico de origem judaica, Heinrich Heine: "Aquilo foi somente um prelúdio; onde se queimam livros, queimam-se no final também pessoas".
Talvez um dia tenhamos um monumento parecido com esse em uma de nossas universidades: uma sala com paredes de vidro, nos deixando ver uma classe repleta de cadeiras vazias, no curso de filosofia... e um grande mural em branco, onde nunca teremos a foto de um ganhador de Prêmio Nobel, enquanto o conhecimento for refém da política estabelecida para garantir os interesses dos poderosos...