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Hei, cara, quero meu refrigerante!

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 2 min

Moro em Itapuã, um bairro de Salvador, capital baiana e que ficou imortalizado na música "Tarde em Itapuã", pelos notáveis Toquinho e Vinícius. Costumo passear pela orla que fica ao lado da praça que homenageia o poetinha com uma estátua.

Local muito visitado pelos turistas que vão até o lendário bairro desfrutar sua boa energia. E foi num desses passeios que reencontrei um amigo de nossa querida e amada Bauru, o Serginho, parceiro de bola e conversas. Foi uma surpresa. E após os cumprimentos iniciais, passamos para uma rodada de chopp gelado, num dia para vadiar e papear, além, é claro, de matar a saudade da Cidade Sem Limites ao relembrar boas e velhas histórias. E foi neste relembrar, entre um gole e outro da "água que passarinho não bebe", que Serginho contou-me interessante fato de sua vida. E assim ele iniciou.

Podemos extrair experiência de todos os acontecimentos da passagem por este mundo e, então, crescer moralmente, nosso grande objetivo nesta jornada de seres pensantes. Era século passado e meus pais tinham uma marmitaria na avenida Rodrigues Alves, em Bauru. No dia 31 de julho de 1999, sábado, minha mãe faleceu de forma repentina. Bem... apesar dos pesares, a vida não pode parar, por isso, tivemos de realizar entregas de marmitas para algumas empresas mesmo com a notícia da partida de mamãe. Então, peguei uma das encomendas e saí, um tanto quanto aturdido e triste pela partida da melhor cozinheira que este mundo já viu. Naquela época dávamos, junto ao marmitex, um refrigerante de dois litros. Eu já estava na última entrega, quando o rapaz que recebeu as marmitas me chamou: 'Hei, faltou nosso refrigerante!' Eu, então, expliquei a ele que minha mãe havia falecido, que eu estava um pouco confuso e esqueci o refrigerante, mas que na próxima entrega levaria. Ele apenas disse: Problema seu! Quero meu refrigerante! Apenas virei as costas e fui buscar o refrigerante do rapaz, não estava com ânimo para discussão. Alguns minutos depois me coloquei a pensar e falei comigo mesmo: Não quero isso pra minha vida! Não quero ser assim, insensível!

Desde então, luto todos os dias, com dificuldades, é verdade, mas com o intuito firme de, diante da dor humana, ser um pouco mais sensível e não ordenar: Hei, cara, quero meu refrigerante! Após a história de Serginho, não pudemos conter a emoção e nos abraçamos diante da saudade que teimava em provocar algumas lágrimas. Naquela tarde, muito mais do que reencontrar o grande amigo e tomar ao seu lado um chopp gelado em Itapuã, pude aprender um pouco mais sobre a empatia, ou seja, a capacidade de colocar-se no lugar do outro a sentir, talvez um pouco, os espinhos que agulham seu coração.

Talvez falte, para um mundo melhor, sermos mais empáticos. Então, nos despedimos, cada um imerso em seus pensamentos a olhar um mar que não tem tamanho, um arco íris no ar...

O autor é colaborador de Opinião.

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