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Também é ser deixar de ser

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Eu não diria que estamos num barco furado. Seria insensato. Mas que há um furo no casco do nosso barco, bem isso não dá para negar. E mais, não é a água que entra por esse furo. É a nossa vida que por ele sai. Exatamente como uma vela, somos cada vez menos, não paramos de queimar. Um dia a mais é um dia a menos. Por isso, deveríamos manter bem viva a consciência da nossa finitude. É da percepção da morte que surge a urgência de viver.

"Não te aflijas com a pétala que voa, também é ser deixar de ser assim." É dessa forma que Cecília Meirelles inicia o seu poema "Quarto motivo da Rosa." Impossível viver e não perder pétalas, toda rosa sabe disso. Deixar de ser faz parte do ser. Existir é tanto ganhar quanto perder. Justamente por estarmos perdendo pétalas, deveríamos aproveitar, com sabedoria, a vida que nos escapa.

"Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe o vento vai falando em mim", acrescenta Cecília. Sábios são aqueles que, mesmo perdendo pétalas, perfumam o que fazem, retirando aroma até mesmo dos piores espinhos. "E por perder-me é que me vão lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim". Assim o poema se encerra. Assim a leitura termina.

Livro fechado, silente a poesia, a reflexão se inicia. Somos todos flores, somos todos rosas. Nenhum sentido faz, portanto, que flores fiquem agarradas egocentricamente às suas pétalas e perfume, recusando semeá-los no vento da doação. Flor assim fechada não cumpre o seu destino de flor.

A vida só vale pelas lembranças que deixarmos na saudade dos que ficam. O vento - a melhor metáfora do tempo que passa - nada pode levar de quem não se desfolha em doação. Essas rosas egoístas morrerão intactas, agarradas às pétalas murchas que recusaram semear. Morrerão esquecidas sem terem sequer saído do minúsculo jardim em que viveram.

Perder pétalas em doação não é perder, mas ganhar. Não existe vida significativa quando se exclui o outro do nosso jardim. Sair de si, compartilhar a alegria de viver, ser flor, espargir aroma no vento que passa, assim bem se vive e assim bem se morre. Emparedado fica quem sufocou a rosa dentro de si.

Hora de voltar à poesia. Diz Cecília que aquele que se desfolha será sempre lembrado. Há meio século, ela nos deixou. Partiu, mas ficou. Dela estamos agora nos lembrando. Viva, portanto, está conosco neste poema, que outra coisa não é senão uma pétala perfumada que, no vento, ela nos deixou.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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