Tribuna do Leitor

Carta aberta ao presidente Jair Bolsonaro

Professoras Catarina Carvalho, Rita Erba, Ana Carla Miziara e toda a equipe da Apiece (Associação de Pais para Integração Social e Escolar da Criança Especial)
| Tempo de leitura: 4 min

Excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro. Diante de tantas reflexões e propostas públicas a respeito da Educação no Brasil, nos sentimos na responsabilidade de indagar, enquanto cidadãos e profissionais do magistério, vosso descaso em relação às licenciaturas de sociologia e filosofia, negando a presença do profissional do magistério, a agulha que abre os caminhos para todas as espécies e cores de linhas que costuram e bordam a comunidade, registrando que o professor ensina todos os demais profissionais, como retrata o Apólogo Machadiano.

Pasme, ilustre presidente! Toda pessoa que queira ter uma profissão depende, necessariamente, de um mestre desde a mais tenra idade. Porém, em publicação nas redes sociais, o senhor cita que o objetivo é focar nas áreas de veterinária, engenharia e medicina. E nos perguntamos: onde está o educador? Nos bastidores, talvez?

Discursando ao lado do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que não pediu um aparte para defesa do seu ministério, como se o ensino pudesse ser restrito de acordo com a vontade da excelência. Assistimos pela Rede Globo, a televisão premiada pela probidade pelo Senado Federal, quando o ministro Dias Toffoli, no momento da homenagem à Globo, veementemente registrou a importância da dramaturgia (novelas) perfilando os brasileiros e os nossos Brasi's. Nas palavras do ministro, se não fossem as novelas, a história do brasileiro seria um enlatado oriundo de outros países. A guisa de maior elucidação todas as universidades, escolaridade, humanas e exatas, desfilam aos nossos olhos, sem restrição no momento das obras imortais da língua portuguesa, sem negligenciar os dialetos. Um ministro conectado não apenas com a Justiça, mas sim com uma amplitude de conhecimentos nacionais e estrangeiros.

Presidente Bolsonaro, todas as pessoas que detêm o poder, na infinidade de informações e num país tão diverso e adverso, momentaneamente podem confundir ou ter um lapso de memória. Só Deus não falha nunca! Mas, como humildes profissionais de magistério que somos, porém atentos ao nosso ofício e missão, numa modesta Escola de Inclusão e Resgate de crianças, jovens, adultos e idosos com deficiência mental e múltipla, na periferia da Zona Norte da cidade de Bauru, Estado de São Paulo, não aceitamos, ou melhor, repudiamos a sua ideia sobre dois segmentos mais importantes do mundo em qualquer País: Educação e Saúde.

Conjugamos todos os dias o verbo "esperançar", porque o "esperar" já foi consumido pelo tempo. Temos que acreditar sim, mas colaborar com o Poder Executivo com o nosso trabalho e as lições do dia a dia do alunado.

Se o senhor nos recebesse no Palácio do Planalto com agenda marcada, iríamos até aí nos identificar e apresentar nossa formação, currículo e tempo dedicado ao ensino. Sei que essa hora não existe. E não faremos um tratado de sociologia, filosofia, língua portuguesa, artes dramáticas, pedagogia, educação física, educação inclusiva... Porque ninguém alcançará a intensidade do conteúdo. O povo prefere fake news e confusão.

Temos em nosso grupo uma técnica de redação e estudiosa da língua portuguesa, iniciando pelo latim. O que fazer, se vossa excelência acha que se os alunos souberem fazer um ofício e somar alguns números para irem até o mercado, estão prontos para o enfrentamento da vida e do trabalho. Acho que não estamos falando do mesmo País.

O ensino não pode ser restringido, deve ser o mais amplo possível, tanto é que temos médicos especialistas em cabeça, ouvido, nariz, boca, pele, cabelo, pescoço, até chegar na pontinha do dedinho do pé. No tempo de criança de nossa diretora pedagógica que está acompanhando este trabalho, era um médico só, clínico e cirurgião, para todos os males. Em Bauru era doutor Osires Domingues. Naquele tempo nosso País não era habitado pelo mosquito da dengue (Aedes Aegypti), que só dano trouxe à humanidade.

No ato de perplexidade ante vosso pronunciamento, resolvemos saber mais sobre o ministro de Educação e, com muito espanto, observamos que sua formação é em ciências econômicas. Logo, entendemos sua intenção, pois um economista não conhece de perto "o chão da escola".

Para finalizar, caríssimo presidente, fundamos há quase quarenta (40) anos essa mesma escola com apenas dezoito (18) alunos e sem equipe especializada. Não foi com apenas um ofício e alguns números que chegamos onde estamos! Vários tratados e fundamentos provaram que havia uma grande esperança de resgate e inclusão, mas para chegar aos olhos das mais diferentes autoridades, tivemos que redigir epopeias, tal a invisibilidade do deficiente no nosso País.

Com gratidão e respeito, esperamos que chegue até vossa excelência um humilde recado de amor pela Educação e alunos de nosso País!

Só para ilustrar, um trecho de Olavo Bilac: "Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: ouro nativo, que na ganga impura. A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura, tuba de alto clangor, lira singela, que tens o trom e o silvo da procela E o arrolo da saudade e da ternura!..."

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