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Problemas emocionais em estudantes crescem e universidades se mobilizam

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 10 min

Ansiedade, insônia, desespero, angústia, tristeza permanente, vontade de desistir, sensação de impotência, desamparo e solidão. Todos estes sentimentos tão duros têm se tornado uma preocupação cada vez maior nas universidades. Segundo estudo recente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), oito a cada dez estudantes de graduação já tiveram algum destes problemas emocionais, desencadeados pelas dificuldades de adaptação às transformações e exigências que esta etapa de vida requer.

Devido ao aumento significativo de alunos com sofrimento mental e transtornos psiquiátricos, incluindo até mesmo casos de depressão, suicídio ou relatos de tendências suicidas, as instituições de ensino têm corrido contra o tempo para aprimorar sua rede de apoio com o objetivo de garantir melhor qualidade de vida a estes jovens (veja mais abaixo).

O levantamento da Andifes revela que, embora os problemas emocionais sejam uma realidade da grande maioria dos universitários, 70% deles nunca procuraram atendimento psicológico em toda a vida. Muitas vezes longe da família, com incertezas sobre a escolha da carreira, tendo de administrar os estudos ao mesmo tempo em que assumem as responsabilidades da rotina de uma vida adulta, os jovens, sem suporte, podem se sentir perdidos, pressionados e, como consequência, manifestar desordens emocionais.

DESAFIO

Preocupado com o bem-estar dos jovens graduandos, o JC propôs o debate com especialistas das duas universidades públicas de Bauru, que analisaram os motivos do agravamento deste cenário e contaram algumas experiências implementadas nestas unidades de ensino.

Divulgação
Edson de Castro, da Unesp

Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e membro da Comissão de Saúde Mental que desenvolve estratégias nos campi da Unesp no Estado, Edson Olivari de Castro relata que o momento mais crítico para os alunos costuma ser o primeiro ano de curso, em razão das novas dinâmicas que se impõem na forma de viver e se relacionar dentro e fora do ambiente acadêmico.

"Estas mudanças trazem angústia e ansiedade, principalmente quando o jovem sai da sua cidade de origem, se afasta da família, dos amigos de referência e passa a uma situação mais anônima, em que não conhece ninguém. Ao mesmo tempo, dentro da universidade, há um nível de exigência com que ele não estava acostumado, com trabalhos, provas e envolvimento em eventos como congressos", detalha o especialista.

COLAPSO

Para Castro, um dos motivos que pode explicar o aumento dos casos de sofrimento mental entre universitários é a consolidação da lei de cotas para estudantes oriundos da rede pública - atualmente, eles representam ao menos 50% do alunado das universidades estaduais e federais. "De modo geral, são pessoas que possuem uma realidade mais vulnerável e que, portanto, tiveram menos acesso, ao longo da vida, a bens culturais que nos protegem, mentalmente falando, bem como a psicólogos", pontua.

14 ANOS

E estudos apontam que metade das doenças mentais costuma surgir antes da chegada à universidade, por volta dos 14 anos de idade - nem sempre com o diagnóstico e tratamento adequados, conforme explicou, em recente entrevista à TV USP de Bauru, Dagma Venturini Marques Abramides, psicóloga e professora da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP). "Quando este jovem chega à universidade, basta um único fator estressor para desencadear algum tipo de colapso emocional ou psiquiátrico", acrescenta a docente, que trabalha questões interpessoais com os alunos.

SEM DESCANSO MENTAL

Ainda de acordo com Castro, outro agravante importante é a redução considerável no tempo de descanso mental das novas gerações, devido ao advento da Internet e, em especial, das redes sociais e aplicativos de troca de mensagens. "Antigamente, o tempo de descanso era de não fazer nada. Agora, as pessoas estão conectadas, recebendo todo tipo de informação, inclusive às relacionadas às atividades acadêmicas. O cérebro não tem mais folga", completa.

Malavolta Jr.
Dagma Venturini Abramides, da FOB/USP

Evento vai discutir o tema?

Temas como violência, racismo e homofobia, além de experiências bem-sucedidas registradas pela USP, Unesp e Unicamp irão protagonizar o 1.º Encontro de Cuidado à Saúde Mental e Promoção do Bem-Estar do Câmpus USP-Bauru. Com palestras, mesas-redondas e plenárias, o evento será realizado nos dias 31 de maio e 1 de junho, motivado justamente pela preocupação crescente da FOB/USP em relação à temática.

“Iremos trazer pessoas que possuem experiência, produções científicas sobre o tema, inclusive”, aponta Dagma Venturini Marques Abramides, psicóloga e professora da FOB/USP. Segundo ela, no encontro, será lançado o projeto “Núcleo Cuidar”, que irá ampliar o leque de ações da instituição para oferecer maior suporte aos estudantes.

“Queremos criar um núcleo de apoio psicológico, psiquiátrico, mas com outras modalidades de atendimento, como oficinas que trabalham habilidades sociais, oficinas de planejamento dos estudos, atividade física, higiene do sono, que irão favorecer a adaptação ao contexto universitário e a permanência no aluno até o último ano, quando ele se depara com a saída para o mercado de trabalho”, adianta.

O evento é voltado aos alunos, docentes e demais funcionários. A abertura está marcada para as 18h da próxima sexta-feira (31).

Bagagem e estressores em 'duelo'

Segundo Dagma Abramides, da USP, o aumento da prevalência de problemas mentais e transtornos psiquiátricos entre universitários tem chamado atenção da comunidade cientifica nas últimas décadas. O que as pesquisas têm apontado é que a diferença entre atravessar esta fase da vida com dificuldade ou relativa tranquilidade está na relação entre duas dimensões: de um lado, a bagagem pessoal do jovem para enfrentar este momento de mudanças e, de outro, os chamados estressores ambientais.

Nestes últimos, estão incluídos o contexto acadêmico (tais como carga horária e conteúdo programático) e o contexto ambiental social (como nível de cooperação ou competitividade e capacidade de desenvolver amizades).

Já os recursos pessoais abrangem características de personalidade, capacidade de adaptação, planejamento e gerenciamento do tempo de estudos. "Ou seja, não é a universidade, em si, que está criando pessoas problemáticas. As dificuldades surgem a partir de diversos fatores".

Entre os sintomas mais comuns que podem indicar a manifestação de um problema mental, ela cita alterações de humor, diminuição do empenho acadêmico, perda da crença sobre a própria capacidade, apatia e até negligência com a aparência. "A orientação, para o professor ou o colega é observar, chegar perto, acolher, perguntar o que está acontecendo e ouvir, para que a pessoa saiba que não está só. Não é mérito e nem demérito não estar bem e buscar a devida ajuda".

Amparo aos jovens

Devido à elevação dos casos de sofrimento ou transtornos psíquicos entre os estudantes, instituições como a Unesp e USP instituíram serviços para amparar os seus alunos. Na Unesp, devido à dificuldade de absorver toda a demanda interna no Centro de Psicologia Aplicada (CPA), foi instituído, no ano passado, o Núcleo Técnico de Apoio Psicossocial (NTap), que atende exclusivamente alunos e funcionários.

"Além da assistência, estamos desenvolvendo práticas de promoção de saúde e prevenção, com ampliação da oferta de atividades culturais e esportivas no âmbito da universidade, como aulas de ioga, violão, dança. Não dá mais para cuidar do aluno somente quando um problema aparece", destaca o professor Edson Olivari de Castro.

Já a USP instituiu, no segundo semestre de 2014, o Plantão de Apoio Psicológico ao Universitário (Papu) para atender os alunos do câmpus de Bauru. Para ampliar o leque de ações da instituição, a universidade lançará, na próxima sexta-feira, o projeto "Núcleo Cuidar", para oferecer maior suporte aos estudantes, inclusive com a realização de oficinas e atividades físicas.

Instituições de ensino oferecem várias modalidades de assistência psicológica

Clínicas de universidades onde estudantes de Psicologia realizam estágio dão assistência gratuita à população, inclusive aos estudantes

Algumas instituições de Ensino Superior de Bauru oferecem assistência psicológica gratuita para a população, que inclui, também, o público universitário. Exemplos são a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (Unesp), as Faculdades Integradas de Bauru (FIB), a Universidade Paulista (Unip), a Universidade do Sagrado Coração (USC) e a Faculdade Anhanguera.

Em todas as instituições, os serviços são prestados por estudantes do quinto ano de Psicologia em estágio, sempre com a supervisão de professores. O JC reuniu alguns serviços que podem ser acionados em caso de sofrimento mental.

CPA DA UNESP

No Centro de Psicologia Aplicada (CPA), alunos do quinto ano e de pós-graduação atendem pessoas de todas as idades, de recém-nascidos a idosos, no câmpus da Unesp. Não há necessidade de comprovação de renda. O agendamento, contudo, só ocorre no início de cada ano. O telefone para contato é o (14) 3103-6090 e o e-mail, cpafc@fc.unesp.br.

Já o Núcleo Técnico de Atenção Psicossocial atende exclusivamente alunos do câmpus. As inscrições ocorrem ao longo de todo o ano na secretaria do CPA, das 8h às 22h, pelo mesmo telefone ou pelo e-mail npaps@fc.unesp.br. O câmpus fica na av. Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, Jd. Colonial.

CLÍNICA-ESCOLA DA FIB

A FIB mantém, em seu câmpus, a Clínica-Escola de Psicologia Aplicada (Cepafib). O agendamento é aberto no início de cada semestre. Portanto, novas inscrições, neste momento, não são possíveis.

O atendimento é prestado de segunda a sexta a crianças, adolescentes e adultos, incluindo estudantes de outras unidades de ensino. Por questões éticas, a FIB entende que seus alunos não devem ser atendidos na clínica-escola. Porém, uma professora presta assistência ao público interno, quando necessário.

Os horários de atendimento variam conforme o agendamento. Mais informações: cepafib@fibbauru.br e (14) 2109-6233. As vagas são limitadas. A FIB fica na rua José Santiago, na Vila Ipiranga.

ATENDIMENTO DA UNIP

A Clínica Psicológica da Unip oferece atendimento a crianças a partir de 6 anos, adolescentes, adultos, famílias e casais. O período de inscrição vai até 28 de junho. No segundo semestre, os agendamentos ocorrem entre 2 de agosto e 28 de novembro.

Também mantém plantão psicológico de terça a sexta-feira, sem necessidade de inscrição prévia (os horários devem ser consultados). Neste caso, o atendimento é a pacientes a partir de 12 anos. Os adolescentes até 18 anos devem levar documentos e estar acompanhados de responsáveis.

Mais informações: (14) 3223-7710 ou na av. Nossa Senhora de Fátima, 9-50, de segunda a sexta, das 14h às 21h.

PAPU DA USP

No segundo semestre de 2014, a USP instituiu o Plantão de Apoio Psicológico ao Universitário (Papu) para atender alunos do câmpus de Bauru. O serviço funciona em convênio com o curso de Psicologia da Anhanguera e oferece duas modalidades: plantão e psicoterapia breve. Quando há necessidade de avaliação psiquiátrica ou tratamento mais prolongado, o estudante é encaminhado para outro serviço fora do câmpus.

Os atendimentos ocorrem às terças e quintas, das 11h às 17h, na FOB. Os interessados devem entrar em contato com a professora Márcia Ferro pelo e-mail ferrorm@hotmail.com, informando nome completo, idade, ano e nome do curso e motivo do pedido de consulta.

CLÍNICA DA USC

A Clínica de Psicologia da USC oferece atendimentos psicológicos gratuitos à comunidade de Bauru e região há quase 50 anos, voltados a crianças, adultos e idosos, sendo individuais ou em grupos. Os interessados devem comparecer pessoalmente até a clínica e preencher uma ficha de inscrição. Os atendimentos são realizados pelos estudantes a partir do 3.º ano do curso de Psicologia, com a supervisão de um docente responsável. Vale ressaltar que o processo se desenvolve a partir da demanda em fila de espera, diferenciando de acordo com as vagas disponíveis para atendimento, porém, a lista tem a duração de, no máximo, seis meses.

A USC conta também com o Serviço de Plantão Psicológico para atender e dar suporte a quem procura ajuda e não pode esperar. Os interessados também devem se dirigir até a clínica.

Para os estudantes da universidade, são oferecidos o "Suporte Psicológico ao estudante" (contatos pelo 2107-7049 e 2107-7050). e o "Núcleo de Apoio Psicopedagógico" (2107-7390).

A Clínica de Psicologia está localizada no bloco K da USC, que fica na rua Irmã Arminda,10-50, Jardim Brasil. Mais informações: (14) 2107-7049 / 7050, das 10h às 22h.

NA ANHANGUERA

A Clínica de Psicologia da Faculdade Anhanguera oferece atendimento à comunidade na Clínica de Psicologia por meio de plantões diários, que envolvem acompanhamento com o paciente durante quatro semanas. Após esse período, se necessário, o paciente é encaminhado para acompanhamento da equipe de psicoterapia ou psicodiagnóstico.

Para o atendimento nos plantões, é necessário agendar pelo telefone (14) 3237-6793. O serviço funciona das 9h às 13h e das 15h às 22h, de segunda a sexta, na alameda Nossa Senhora do Rosário, 4-45, Parque São Geraldo.

 

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