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Coleta de material reciclável cai e cooperativas temem por colapso

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

Samantha Ciuffa
Coopeco ficou sem material e praticamente parou; problema pode voltar nesta semana

A falta de material reciclável nas cooperativas vem preocupando os trabalhadores que dependem da atividade em Bauru. Em uma delas, o volume disponível é tão baixo que será necessário suspender os serviços em até três dias nesta semana. A Secretaria de Meio Ambiente (Semma) admite ter dificuldade em aumentar o volume coletado e informa sofrer com a ação de atravessadores. Já as cooperativas pedem uma atuação mais efetiva da prefeitura. Falam, inclusive, em assumir a coleta e transporte do material reciclável.

Atualmente, quatro cooperativas atuam no município, sendo que três recebem material da Emdurb. São elas: a Coopeco, Cootramat e Cooperbau. Gisele Moretti, da Coopeco, afirma que a situação começa a ficar desesperadora para os cooperados. "Está cada vez mais difícil, nesta semana praticamente paramos de trabalhar por dois dias porque não tinha material. O que acontece é que tem muito atravessador. A gente quer que todos possam trabalhar e tenha mais cooperativas, desde que tenha material para todas. O maior problema está na coleta casa a casa. Depois que a Semma alterou o contrato com a Emdurb e passou a pagar valor fechado por equipe, e não mais por tonelada, percebemos que caiu a quantidade de material que recebemos. Já teve caminhão que chegou com 140 quilos. É muito pouco", afirma.

Samantha Ciuffa
Maicon Custódio da Cruz viu a renda despencar pela metade

Outra cooperativa que sofre com o momento atual é a Cooperbau. A presidente da entidade, Sílvia Aparecida Martarelli Ferreira, lembra que a arrecadação diminuiu bastante, cerca de 70%. "Com a situação do País, ficou tudo mais difícil. Agora temos visto atravessadores vindos de fora, com caminhão. Se a coleta seletiva não mudar e tiver uma programação para começar mais cedo, ficará complicado. Precisa de mais fiscalização. Na nossa cooperativa, pagamos aluguel, água, luz, e temos 11 cooperados. Do jeito que está, daqui a pouco vou ter que fechar", lamenta.

MEDIDAS

O secretário de Meio Ambiente, Sidnei Rodrigues, afirma que apenas com um trabalho educativo será possível aumentar o volume de material. Sem estipular prazos, ele frisa que ação precisa ocorrer em campanhas nas escolas, na mídia e de casa em casa para divulgar a importância da separação do material reciclável e os dias e horários de coleta seletiva - esses dados estão disponíveis no site da Emdurb (www.emdurb.com.br/coleta/coleta_seletiva).

A Semma está repassando cerca de 200 toneladas mensais de material reciclável para as três cooperativas, sendo que metade é coletada nas casas pela Emdurb e o restante nos ecopontos. O montante está 'estagnado' há alguns anos, segundo o secretário.

A fiscalização sobre os atravessadores é outra medida que deve ocorrer. "Após o começo da crise econômica, vemos que mais pessoas estão trabalhando com a coleta e venda de material reciclável. Aquele pequeno coletor, os chamados carrinheiros, não vamos punir, porque é uma questão de sobrevivência e nem poderíamos penalizar essas pessoas.

Samantha Ciuffa
Gisele Moretti defende mudanças na coleta casa a casa

Agora vemos também atravessadores, que vão de camionete e até com caminhão para coletar antes dos veículos da Emdurb, o que prejudica muito. Para esses é possível aplicar uma fiscalização, com multa que pode chegar R$ 5 mil", frisa Rodrigues.

Para chegar aos atravessadores, será necessário pegar em flagrante ou contar com denúncias. Por meio da placa dos carros, a prefeitura consegue identificar, cita. "Esse serviço de reciclagem é feito pelas cooperativas cadastradas na prefeitura e o município tem o dever de manter a atividade funcionando bem", comenta.

Outra entidade quer material da prefeitura

Sem volume suficiente para as três cooperativas, uma quarta entidade pretende receber o material coletado pela prefeitura através dos caminhões da Emdurb e dos Ecopontos. A nova cooperativa fica no Parque Jaraguá - as outras estão no Parque Paulista (Coopeco), Jardim Redentor (Cootramat) e Vila Dutra (Cooperbau). De acordo com Sidnei Rodrigues, primeiro é necessário aumentar a quantidade coletada para dar conta de ter quatro cooperativas. "A Semma já recebeu o pedido de uma quarta cooperativa, mas o que estamos coletando agora não é suficiente nem para as três atuais. Então fica uma situação complicada, pois todos têm o direito de trabalhar. Como eu disse, só com ações educativas será possível aumentar a coleta, dar mais condições para as cooperativas e ainda ter outras", comenta.

Falta regulamentar lei dos grandes geradores

A lei dos grandes geradores de lixo foi aprovada no ano passado pela Câmara Municipal, porém ainda precisa do decreto de regulamentação da prefeitura. O prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD) deve assiná-lo após aprovação do texto pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Comdema). Nos primeiros dois meses, a proposta é que tenha um caráter de orientação para as empresas e organizadores de eventos.

Após esse período, começará a ter penalidades, como advertência, multa diária de até R$ 2 mil ou multa única de até R$ 20 mil. Será classificado como grande gerador o estabelecimento que produzir até 200 litros diários de resíduos - o equivalente a dois sacos grandes. A maior parte está na indústria e comércio. "A lei determina que o material reciclável deva ser encaminhado para as cooperativas do município, o que pode ajudar a aumentar o volume que elas recebem, pois muitas empresas ainda não fazem a separação. O interesse deve acontecer também porque se com a separação a empresa produzir menos de 200 litros diários de material orgânico, pode ficar fora da relação de grandes geradores. Vai reduzir custos para a prefeitura e, o mais importante, gerar material para as cooperativas. O processo deve ser simples, as próprias empresas deverão se cadastrar, atestando com um profissional da área o quanto produz e a destinação. Depois, a Semma fará a fiscalização. As empresas que farão a coleta também deverão ter um cadastro na Semma", afirma Sidnei Rodrigues.

Renda de cooperados fica abaixo do mínimo

A falta de material para o trabalho nas cooperativas preocupa diretamente quem vive da reciclagem. Os cooperadores estão perdendo renda e têm dificuldade para pagar o básico. Maicon Antônio Custódio da Cruz, 23 anos, veio de Jaú há quatro, quando começou a ser cooperado da Coopeco. Morador do Ferradura Mirim, próximo do seu local de trabalho, ele diz que perdeu metade da renda com a crise. "Antes, cada um tirava de R$ 1.300,00 a R$ 1.500 por mês, agora caiu bastante. Tiramos entre R$ 800,00 e R$ 900,00. Estamos com dificuldade para pagar as contas e até para comprar o básico, para a alimentação", fala.

Antes de trabalhar com reciclagem, Maicon teve outros empregos, em Jaú, e depois veio para Bauru para tentar uma oportunidade de trabalho. "Atualmente a situação está bem difícil. A concorrência pelos recicláveis aumentou e tem muito atravessador. Eles estão vindo até com caminhão. Se não mudar, vai ficar mais complicado", afirma. Com dois filhos - um de 2 e outro de 6 anos - ele espera que a situação possa melhorar o quanto antes.

Contrato e horário da coleta são questionados 

As cooperativas de material reciclável pretendem pedir a mudança do horário da coleta seletiva, para diminuir a concorrência com atravessados. Gisele Moretti, da Coopeco, afirma que o ideal seria que os caminhões saíssem por volta das 6h e não às 7h como atualmente. Ela critica ainda o contrato da Semma com a Emdurb, pois desde o ano passado não é mais por tonelada recolhida, mas com valor fixo por equipe. "Do jeito que está hoje, tanto faz para a Emdurb recolher pouco ou muito material", afirma.

Antes, a prefeitura pagava para a Emdurb por peso. O valor era de R$ 549,00 por tonelada, com estimativa de 2.400 toneladas por ano, gerando uma receita anual de R$ 1.317.600,00 com o serviço. No novo contrato, assinado no final de 2017, a Emdurb ampliou a coleta seletiva para praticamente toda a zona urbana, mas passou a receber um valor fixo de R$ 40 mil mensais por equipe (combo), que envolve caminhão, motorista e coletores, em um total de seis equipes, totalizando R$ 240 mil por mês, e R$ 2.880.000,00 por ano.

O diretor de limpeza pública da Emdurb, Márcio Teixeira, frisa que o contrato com valor por equipe é adotado em praticamente todos os municípios. Já com relação aos horários, a empresa municipal fará reunião com as cooperativas para discutir o assunto. "Vamos avaliar a possibilidade de alterar, se for melhor para todos", entende. "O que precisará ter mais é fiscalização, e também uma regulamentação da atividade de empresas que trabalham com material reciclável. Está vindo até gente de fora, atualmente não há regras".

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