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Especialista na arte de lidar com pessoas

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Apaixonado por artes, Antonio Americo Cardinale planejava fazer Arquitetura até momentos antes de entrar na faculdade. Mas foi no trabalho como administrador de shopping centers que descobriu sua verdadeira vocação, a qual ele se dedica de corpo e alma: lidar com pessoas.

Malavolta Jr.
Americo Antonio Cardinale: "Sou apaixonado pelo trabalho"

Coordenador de administração da AD Shopping, ele responde não apenas pelo Bauru Shopping, que irá completar 30 anos em novembro, mas também pelo Shopping Rio Claro, La Plage Guarujá e Marília Shopping. Há duas décadas atuando no ramo, hoje ele coordena, diretamente, o trabalho de uma equipe de cerca de 400 pessoas.

Malavolta Jr.
Cardinale administra o Bauru Shopping, que faz 30 anos em 2019

Apesar de trabalhar nos sete dias da semana, Americo, aos 64 anos, segue cultivando suas outras paixões, como conhecer novos países e visitar, sempre que pode, a Itália, que o reconecta com sua origem. Na cabeceira da cama, guarda livros de Julio Cortázar e Gabriel García Márquez, a quem ele sempre recorre quando precisa "reencontrar o eixo".

Na conduta de vida, segue os valores do lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No coração, há espaço reservado, ainda, para o filho, a esposa e o futebol - em especial, o Palmeiras.

Na entrevista abaixo, Americo conta um pouco da sua trajetória, trazendo como pano de fundo, em alguns momentos, a própria história do País.

JC - Conte um pouco sobre sua origem, onde nasceu e quem eram seus pais.

Cardinale - Nasci em São Paulo e morei lá até os 40 anos. Meu pai era advogado e minha mãe, dona de casa. Ambos, já falecidos, eram imigrantes: ele veio da Itália e ela, da Romênia. Tenho, inclusive, o privilégio de ter cidadania italiana. Eu me formei no tradicional Colégio Dante Alighieri e fiz duas faculdades: Direito na USP e Administração na FGV. Fiz os dois cursos simultaneamente, um de manhã e outro à tarde, e foi um grande desafio.

JC - E como a administração se sobressaiu na sua trajetória profissional?

Cardinale - Fui advogado do Itaú por cinco anos, em uma época em que o mercado financeiro brasileiro estava crescendo muito e dominava as oportunidades de trabalho. Quase todos os meus colegas do curso de administração foram absorvidos por bancos nacionais e estrangeiros. Na época, recrutadores das empresas iam até a faculdade nos intervalos, se reuniam com os alunos para garimpar potenciais talentos. Em 1987, surgiram oportunidades no setor imobiliário e acabei entrando no ramo de shopping center, no grupo Savoy, em São Paulo. Logo depois, em 1989, o sócio majoritário da AD Shopping me convidou para um desafio em Sorocaba, para a implantação do Iguatemi Esplanada. Foi aí que me apaixonei por este trabalho, que venho desempenhando desde então, dentro da mesma administradora.

JC - E como foi a chegada a Bauru?

Cardinale - Fui gerente-geral do Esplanada até 2004, quando surgiu o convite para ser coordenador de alguns shoppings e o primeiro deles foi o Bauru Shopping. Eu não moro aqui, mas adotei a cidade, porque passo mais tempo em Bauru do que na minha casa, em Sorocaba. Em 2004, o momento era de crescimento muito forte da economia, principalmente do varejo. Foi a oportunidade para transformar o Bauru Shopping em um shopping grande. E isso foi feito ao longo destes quase 15 anos, período em que, rapidamente, conseguimos implantar quatro expansões, ao mesmo tempo em que fomos elaborando estratégias para ganhar mercado em Bauru e região.

JC - O senhor disse que é apaixonado pelo seu trabalho. Qual é o principal motivo dessa paixão?

Cardinale - São inúmeros motivos. Mas o principal é poder lidar com pessoas, o que requer habilidades não apenas para negociação, mas para se relacionar com todos os níveis profissionais e aprender a identificar quais são as ações que permitem alcançar resultados positivos. É um trabalho em que a gente não faz nada sozinho e se desafia todos os dias.

JC - É um trabalho que exige muito do senhor, imagino...

Cardinale - Eu trabalho sete dias por semana. É difícil eu me desligar. Mesmo em casa, estou trabalhando, porque as informações chegam a toda hora pela Internet. Mas isso não é um incômodo para mim. Essa vida acelerada não me faz mal, não me sinto cansado. Pelo contrário, estou sempre disposto e estimulado, independentemente do horário. Lógico que é preciso administrar o tempo dedicado à família, mas isso só é possível aos finais de semana, porque, de segunda a sexta-feira, fico na estrada, me deslocando entre Bauru, Marília, Rio Claro e Guarujá. E a minha mulher entende, até porque ela tem os desafios profissionais dela e também é muito demandada.

JC - Qual foi o período mais difícil que o senhor enfrentou no seu trabalho como administrador?

Cardinale - Talvez o pior momento foi durante o Plano Collor (no início da década de 1990). Foi um período sangrento para shopping centers. Já a crise que enfrentamos nestes últimos quatro anos foi a que demandou mais esforço, pessoalmente falando, porque coordeno outros três shoppings e a gente precisa fazer com que todos os empreendimentos se fortaleçam ao mesmo tempo para enfrentar uma situação como esta. Felizmente, foi o que conseguimos fazer. O Bauru Shopping, por exemplo, não deixou de crescer.

JC - E o que o senhor gosta de fazer, além de trabalhar?

Cardinale - Gosto de ficar com minha família. Gosto muito de cinema, mas hoje assisto mais a filmes em casa. Na época de estudante, eu era 'rato de cinema'. O cinema de arte tinha uma força muito grande. Hoje, a indústria cresceu muito e o cinema é mais entretenimento. Então, quando tenho possibilidade de assistir a um bom filme, fico feliz. Também gosto muito de futebol. Sou palmeirense, acompanho tudo e gosto de ir ao estádio com meu filho, o Pedro, de 17 anos. É meu filho único. Ele mora em Botucatu com a mãe e, sempre que a agenda permite, a gente se encontra. Outra coisa que gosto muito é viajar. Tento, uma vez a cada dois anos, parar para fazer uma viagem. A próxima, inclusive, já está programada: tiro 15 dias de férias em julho e vou para a Espanha e Itália com o Pedro e minha mulher. Quero que eles conheçam a Toscana, um lugar fantástico, que carrega a história da civilização ocidental em todos os cantos.

Arquivo Pessoal
Americo e duas de suas grandes paixões: a Itália e o Palmeiras

Arquivo Pessoal
Pedro e Americo Cardinale durante jogo do seu time de coração

JC - A arte teve papel importante na sua adolescência?

Cardinale - Eu gostava muito de artes plásticas, acompanhava bienal. Eu queria ser arquiteto, mas meu pai me convenceu a mudar de ideia, porque não basta só ter dedicação, criatividade e gostar de artes. Você precisa ter talento para desenhar. Mesmo assim, até o último momento, eu queria Arquitetura, porque quem fazia o curso na USP era só gênio, artista, a elite intelectual paulista. Mas acabei repensando. Optei pelo Direito por escolha do meu pai e Administração por escolha minha.

JC - E a paixão pelo futebol? A torcida pelo Palmeiras foi herdada do pai, italiano?

Cardinale - Sim. E também porque o futebol teve muita influência sobre a minha geração, desde a infância. Presenciamos o começo da era de ouro do futebol brasileiro. Quando o Brasil foi bicampeão na Copa do Mundo, em 1962, eu era moleque e já via que aquilo mexia com as pessoas. E, em 1970, a conquista do tricampeonato foi a glória. Desde então, eu comecei a acompanhar muito futebol. Fui muitas vezes com um tio ver o Pelé jogar nos estádios. Ele era um astro. E, por lazer, joguei bola até os 40 anos. Só parei porque precisei operar o joelho e o médico proibiu.

JC - E passou a praticar algum outro esporte no lugar do futebol?

Cardinale - Comecei a caminhar. Faz bem para a mente. Carrego sempre um tênis e um short no carro. Quando dá, saio para andar. Quando moleque, em São Paulo, eu andava 40 quarteirões, da minha casa, na região da avenida Paulista, até o Centro, no escritório do meu pai. Andar ajuda a abrir os pensamentos, ajuda na criatividade, a pensar no que você pode fazer não só no trabalho, mas na vida.

Perfil

Arquivo Pessoal
Valéria Lacava e Americo Cardinale

Nome: Antonio Americo Cardinale

Idade: 64 anos

Esposa: Valéria Cristina Lacava

Filho: Pedro Forte Cardinale, 17 anos

Time: Palmeiras

Livros: "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar, e "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez. "São dois livros que eu tenho de reler de vez em quando para reencontrar o eixo. Eles me dão direção de vida."

Filme: "Amacord", de Federico Fellini. "Foi um filme que ganhou Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1975. Também nem sei quantas vezes já assisti."

Música: "Waiting on a Friend", dos Rolling Stones

Signo: "Virgem, mas não acredito na influência dos signos."

Lema de vida: "Carpe diem. Principalmente depois dos 60 anos, você percebe que a melhor coisa é viver bem."

Hobby: Atualmente, a caminhada

Um ídolo: O pai, Americo João Vicente Cardinale

Para quem dá nota 0: "Para a violência. Em 30 mil anos de civilização, é imperdoável que a gente não tenha superado a violência."

Para quem dá nota 10: "Para quem defende a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Gosto muito desta tríade de valores."

 

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