| Samantha Ciuffa |
![]() |
| Ligado à Cooopeco, Danilo Costa Ferreira de Almeida também recolheu material no Mary Dota, na última quarta-feira; ideia é repetir o trabalho três vezes por semana para que cooperados possam viver com dignidade desta atividade, hoje concorrida |
Cansada de sentir os efeitos da queda na arrecadação de materiais recicláveis da coleta seletiva pública, a Coopeco, cooperativa localizada no Parque Paulista, em Bauru, tem saÃdo pelas ruas com caminhão próprio e com foco na coleta domiciliar (orgânicos). Inédita, a ação também conta com parceria da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região (Ascam) e arrecadou em apenas três horas 1,2 tonelada de recicláveis, na última quarta-feira.
Na prática, funciona da seguinte forma: o caminhão da Coopeco se antecipa ao da coleta domiciliar pública em um setor especÃfico (bairros) e recolhe o que não foi separado pela população e iria para o aterro no caminhão da coleta orgânica. A prefeitura diz estar ciente da atividade experimental e que aguarda um estudo prometido pela cooperativa e Ascam (leia mais abaixo).
Com tom de "faça você mesmo", a inciativa pode ser vista também como uma forma de cobrança de atitudes por parte da prefeitura sobre a coleta seletiva pública, que apresentou queda brusca na arrecadação nos últimos anos. A ideia, inclusive, é que a atuação se estenda entre outras duas cooperativas da cidade, que já trabalham com material recolhido pela administração municipal.
QUEDA
No dia 2 deste mês, o JC publicou reportagem alertando para a preocupação das cooperativas de Bauru frente à diminuição do recebimento de recicláveis, oriundos da coleta seletiva. Na oportunidade, lideranças do setor chegaram a cogitar assumir a coleta e transporte do material, que hoje é feita pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e Emdurb.
"A arrecadação caiu depois que o contrato com a Emdurb foi alterado e o municÃpio passou a pagar um valor fixo mensal, ao invés de pagar pela tonelada arrecadada", afirma Gisele Moretti, da Coopeco.
O contrato foi alterado no final de 2017. Antes, o valor era de R$ 549,00 por tonelada, com estimativa de 2.400 toneladas por ano. Depois, a Emdurb ampliou a coleta seletiva para praticamente toda a zona urbana, mas passou a receber um valor fixo de R$ 40 mil mensais por equipe, totalizando R$ 240 mil por mês.
A ação dos chamados atravessadores (que chegam antes da Emdurb com camionete e até mesmo caminhões) também cresceu e prejudicou o serviço. O municÃpio prometeu fiscalização e fala em multa que pode chegar a R$ 5 mil, mas é difÃcil flagrá-los.
AÃ?Ã?O
Na última quarta-feira (19), a Coopeco resolveu sair às ruas, das 6h30 as 10h30. Arrecadou com um caminhão próprio dois mil quilos de material, que resultou em 1,2 tonelada de recicláveis para processamento e venda.
"Com a crise, todo mundo passou a ver no reciclável uma oportunidade de ganhar", reforça Gisele. "Viramos atravessadores pela necessidade! Ou era sair por conta própria, ou irÃamos ter que cortar pela metade, de R$ 1 mil para R$ 500,00, o ganho do pessoal da cooperativa. AÃ, iria complicar de vez. E não queremos fechar as portas, queremos trabalhar", acrescenta.
Por mês, ela diz que a Coopeco tem recebido dos caminhões da coleta seletiva pública cerca de 1,8 tonelada de recicláveis. "Antes, eram 2,8 toneladas", compara.
EXPERIÃ?NCIA
Em nota, a Prefeitura informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que tomou conhecimento da atividade que está acontecendo por parte da Ascam. "Ã? algo a tÃtulo de experiência para verificação do volume de resÃduos recicláveis presentes no lixo orgânico domiciliar, tendo em vista que a prefeitura já está analisando um projeto de cooperação entre a associação e as cooperativas", diz.
O poder público cita ainda que a proposta será colocada em prática buscando um melhor aproveitamento dos resÃduos recicláveis para os cooperados que deles tiram a sua subsistência. "Houve uma citação formal ao gabinete para esta experiência por parte desta entidade que é legalmente constituÃda no municÃpio".
'Sem conflitos'
Para não gerar desentendimento com as demais cooperativas que recebem materiais do municÃpio, Gisele Moretti diz ter conversado com a Cootramat, localizada no Jardim Redentor, e Cooperbau, na Vila Dutra. "Chamei todos para virem comigo. A Coperbau também quer começar a arrecadação própria. Comentamos com a Cootramat, mas ainda não sabemos se eles também participarão", pontua Gisele, citando ainda ter pedido autorização do próprio prefeito para colocar em prática a experiência.
Entidade quer estudar lixo e fidelizar público
Responsável pela Coopeco, Gisele Moretti diz ter protocolado um ofÃcio na prefeitura prometendo um estudo ao poder público contendo o volume de recicláveis que ainda integra a coleta domiciliar nas regiões atendidas. "Muita gente ainda não separa o lixo em Bauru. Queremos ajudar a prefeitura, indicar caminhos. Nossa ideia, em um segundo passo, é criar uma espécie de campanha e fidelizar o público dos bairros", observa Gisele.
A arrecadação da Coopeco e Ascam acontece 3 vezes na semana, em dias alternados e definidos conforme cronograma estratégico próprio. Por enquanto, a equipe trabalha na região do Núcleo Habitacional Mary Dota. Os endereços especÃficos não são indicados por receio da ação de atravessadores.
Â
