Geral

Entrevista da Semana: 'Tiana' de Fátima Gomes

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
Gabriel Augusto Brandão, Tiana e Fernando César Brandão

Negra, pobre, mulher. Uma guerreira filha de Iansã que luta contra o preconceito. Uma pessoa que sonha com uma sociedade onde todos, independentemente da cor da pele, tenham as mesmas oportunidades. Ela é Sebastiana de Fátima Gomes, a professora Tiana, bisneta de escravos, filha do seo Sebastião Felipe Gomes (in memoriam), funcionário público semianalfabeto, e de dona Catarina Benedita Gomes (in memoriam), do lar, analfabeta, que faziam questão que os filhos tivessem estudo. Uma mulher que, desde muito pequena, precisou lutar - e muito - para seguir em frente e afirma: "O estudo fez a diferença na minha vida". E, para Tiana, é justamente por meio da educação que os jovens vão descobrir sua identidade étnica, os caminhos da superação, abrir os olhos para a questão da justiça social e enxergar além. Atualmente, ela dá aula no Rembrandt COC, no Colégio Faag, na Faculdade de Agudos e na Escola Estadual Édison Bastos Gasparini. 

JC - Mulher e negra. Não deve ter sido fácil encarar os desafios até aqui.

Sebastiana 'Tiana' de Fátima Gomes - Sou uma guerreira, bisneta de escravos e fiz uma descoberta tardia, já com mais de 30 anos, da minha ancestralidade. Nossa escola não trabalha muito a identidade étnica. E tudo isso influenciou muito a minha vida. Para você ter uma ideia, meu sonho era casar com um rapaz louro dos olhos azuis. Na escola, a gente só escutava a história de príncipes loiros. Então, eu não tinha reconhecimento da minha identidade. Por isso, hoje sou uma militante dessa questão étnico-racial junto aos alunos das escolas em que eu trabalho, principalmente na escola pública.

Arquivo Pessoal
Prêmio Luísa Mahin do Conselho da Comunidade Negra de Bauru (2016) pelo trabalho contra o preconceito

JC - Hoje você é professora, mestre em docência, palestrante. Foi muito difícil chegar até aqui?

Tiana - Basta dizer que sou a primeira pessoa da minha família que chegou à universidade, que fez mestrado. Isso incluindo todos os meus tios e primos. Foi muito difícil. Eu morava em Pirajuí. Aos 14 anos, comecei a trabalhar no Instituto Paulista de Promoção Humana, uma organização de padres que tinham projetos sociais. Foi aí que comecei a ler mais, me envolvi com a comunidade religiosa. E eu queria muito fazer faculdade, mas a gente tinha dificuldade, tinha que pagar ônibus. Meu sonho era mudar para Bauru para fazer faculdade aqui, o que acabou acontecendo aos 19 anos. Queria fazer faculdade de história, mas acabei fazendo geografia. Mas hoje trabalho com história e geografia. 

JC - E como foi a realidade da universidade?

Tiana - Quando vim pra Bauru, passei no vestibular da então Fafil, hoje USC. Só que no primeiro mês já vi que não ia conseguir pagar. Chorei muito. Fui falar com a irmã e ela conseguiu que eu trabalhasse na escola São Francisco, como auxiliar de professora. No ano seguinte, já peguei aula. Foi puxado.

JC - Você sempre quis ser professora?

Tiana - Era um sonho do meu pai. As meninas iam ser professoras e o menino, advogado. Mas ele não conseguiu fazer faculdade. Ele entrou, mas não terminou. Em Pirajuí, morávamos sempre muito longe. Era preciso andar quilômetros para estudar. Não dava para comprar caderno. Usava o que ganhava da escola. Eu nunca tive canetinha, lápis de cor. Eu tinha tudo para desistir, mas aí entra a importância da família. Minha mãe era analfabeta, mas punha a gente para estudar, fazer tarefa, ficava observando. Ela não sabia o que estava fazendo, mas sabia que a gente tinha de estudar. E meu pai insistia. Enquanto meus primos, primas iam trabalhar cedo, meu pai dizia que a gente tinha de estudar. Mesmo na alimentação a gente teve restrições. Minha mãe lavava roupa para fora, criava umas galinhas para vender os ovos. Tudo para ajudar. Era difícil. Mas hoje percebo que meu pai fez a coisa certa.

Arquivo Pessoal
Sebastião Felipe Gomes (pai) e Catarina Benedita Gomes (mãe)

JC - Seu pai viu você se formar professora?

Tiana - Viu. E foi emocionante. Para ele foi gratificante. Fico até meio emotiva de falar, porque consegui realizar o sonho dele, apesar das dificuldades.

JC - Você acha que as coisas estão mais fáceis hoje?

Tiana - Os tempos mudaram. Na era da globalização fala-se tanto em oportunidades. Mas para as pessoas que ficam esquecidas, parece que a oportunidade não chega nunca. Hoje eu vejo que alguns lugares que tem lá (em Pirajuí) não mudaram. Meu bairro ganhou asfalto, mudou a paisagem, mas a condição das pessoas de chegarem a uma universidade para ter uma situação melhor ainda está bastante restrita. E existe uma diferença entre ser pobre e ser pobre e negro. É pior.

JC - Você sentia isso?

Tiana - Às vezes, percebia que um colega não gostava de mim, um professor me tratava com desdém, mas eu não sabia o porquê. Só adulta, depois que eu fui estudar as temáticas, é que fui percebendo tudo isso. Percebendo, por exemplo, porque meu pai não conseguiu chegar a uma faculdade. Meu pai desistiu da escola de tanto que apanhou da professora. Ser pobre e negro, na hora de arrumar emprego, é mais complicado ainda. Eu tive bastante sorte. As portas se abriram bastante para mim. Mas, para  maioria, não.

Arquivo Pessoal
Tiana e o filho Fernando César Brandão, na formatura dele

JC - Você sofreu preconceito na sua trajetória?

Tiana - Sempre fui muito bem recebida, inclusive pelos pais. Percebi, mais adiante, que meus filhos sofreram, mas também não fazia essa leitura.

JC - Quando você começou a fazer essa leitura?

Tiana - Em 2003, foi criada a lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação. A partir daí, a gente começou a ler mais, fui me inteirando com o assunto. A leitura dessa temática me permitiu perceber que eu fui vítima de racismo. E meus filhos também. Fernando, o mais velho, por exemplo, tinha um colega que jogava o estojo no chão e dizia para ele "Pega, escravo." Em 2011, um aluno meu disse para meu filho mais novo, Gabriel: "Sai da frente, filho da macaca". E só teve um pedido de desculpa. Então, eu sempre disse para meus filhos que eles tinham que estudar e que não podiam perder a chance, porque eles eram pobres e negros. Consegui segurar meus filhos com o sonho deles de ter uma perspectiva melhor. Meu filho Fernando se formou engenheiro, pela USP, em Lorena. Ganhou diploma de honra mérito. Que eu vi, durante a formatura, só uns quatro afrodescendentes. Ele já está trabalhando, viaja bastante. O Gabriel está cursando História, se forma no ano que vem, está descobrindo sua ancestralidade. O sonho plantado através do estudo fez a diferença.

JC - Mas a gente sabe que nem todos têm a mesma oportunidade, mesmo que queiram.

Tiana - Mesmo que queiram. E meus filhos estudaram em escola particular, o que faz diferença. Procuro fazer o máximo na escola pública. Mas quando vejo a situação deles, a gente percebe que as oportunidades deles são bastante limitadas, comparando aos alunos da escola particular. Então, na particular, procuro desenvolver a sensibilidade dos alunos para a causa social, porque eles serão os patrões. E na escola pública, quero que saibam que podem sonhar com coisas melhores. Minha luta com os jovens da escola pública é pela descoberta da identidade étnica e dos caminhos para superação. Trago para eles muito minha história de vida para que eles percebam que é possível.

JC - Você diz que teve uma redescoberta da sua ancestralidade tardia. Como foi isso?

Tiana - Começou com a lei 10.639.  Fui trabalhar no colégio Faag, em Agudos, e lá tive a proposta de escrever um material didático para Angola. E fui para a África, em 2012. E senti uma sensação muito estranha. Lembrei dos navios negreiros e chorei. E toda vez que me lembro, eu choro. Fiquei lembrando o quanto foi difícil para meus ancestrais que vieram de lá sobreviver e chegar do lado de cá do Atlântico. E aí, fui entender o que é superação. Para eu ir para a África numa condição de escritora internacional, dar palestra, eles tiveram que sobreviver ao navio negreiro e às condições de escravidão aqui.  Naquele momento, eu entendi quem eu sou. Eu sou descendente de heróis. E voltei mais forte. Fui me redescobrindo, parando de alisar o cabelo, comecei a fazer tranças. E hoje procuro despertar nas minhas alunas o amor pelo que elas são. Isso não foi trabalhado em mim. Eu tinha de alisar o cabelo com um pente em brasa, quando era pequena. Tudo para ser aceita pela sociedade. Hoje minhas alunas também estão se redescobrindo.

JC - Hoje, você dá aulas para Fundamental e Médio em três escolas - duas particulares, uma pública e uma universidade. Você acredita que a nova geração vai mudar paradigmas?

Tiana - Depende do trabalho do professor em sala de aula. Por isso é preciso uma ação mais profunda nas universidades, com educação étnico-racial, para que os futuros profissionais também sejam preparados para entender o que acontece. Só assim eles não vão reproduzir o racismo. É uma luta diária contra. Já fico contente que meus alunos começam a entender um pouco mais a realidade, a enxergar um pouco mais além.

PERFIL

Nome: Sebastiana de Fátima Gomes, Tiana

Idade: 54 anos

Filhos: Fernando César, 25 anos, e Gabriel, 22 anos

Time: Corinthians, "por entender a história do time".

Livro: "Quem tem medo do feminismo negro", da Djalma Ribeiro. 

Filme: "Amistad". "Uso muito ele, exatamente para entender como os africanos chegaram ao Brasil e mostrar toda a violência".

Música: Rap, samba, forró, MPB

Lema para a vida: Viver e não ter vergonha de ser feliz

Hobby: Dançar

Ídolo: Zumbi

Nota 10: No momento, para meus pais

Nota 0: Para os preconceituosos. "Do passado e do presente."

Contanto: tianinha43@ gmail.com

Facebook: Sebastiana de Fátima Gomes (Tiana) 

Comentários

Comentários