| Samantha Ciuffa |
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| Professor da Unesp Ari Maia |
"Ih, onde já se viu um menino grande desses chorar?". A criança pode ter três anos de idade, mas, se for do sexo masculino, boa parte dos pais vai ensiná-la a reprimir suas emoções. E assim, dizendo que fragilidade é coisa de menina, proibindo brincadeiras com bonecas e dizendo desde a infância que o garotinho "vai dar trabalho para a mulherada", a família vai construindo a masculinidade tóxica de sua prole.
Porém, em meio às lutas por igualdade de gênero, que conquistaram significativos avanços nas últimas décadas, este perfil de homem está sendo colocado em xeque. Sem dúvida, o machismo tem como sua principal vítima a mulher - que sofre violência física e psicológica e, não raramente, perde a vida por isso -, mas, nos últimos anos, cresce o entendimento de que este padrão também prejudica os homens.
É para trazer esta reflexão, sobre os desafios impostos aos homens interessados em acompanhar a evolução da sociedade, que o Jornal da Cidade ouviu especialistas sobre o assunto. O debate é proposto em comemoração ao Dia do Homem, celebrado em 15 de julho com o objetivo de melhorar a saúde deles e a relação entre gêneros, bem como destacar papeis positivos masculinos.
Psicanalista e escritora, Regina Navarro Lins explica que o padrão perpetuado na criação de meninos sempre os reprimiu quanto manifestar emoções e os estimulou a resolver conflitos com violência. Assim, diante da rejeição a tudo o que é associado ao feminino, o desprezo às mulheres, muitas vezes tratadas como objetos a serem subjugados, acaba sendo naturalizado. Neste contexto, o campo se torna fértil, também, para a homofobia.
"Quando o movimento feminista ganhou força, nos 1960 e 1970, os homens não se deram conta de que não eram só as mulheres que eram oprimidas. Pelo contrário, até debocharam daquele movimento. Mas, de uns 20 anos para cá, começaram a se dar conta de que eles também têm algo do que se libertar. Começaram a sentir o peso de corresponder ao ideal de masculinidade, em que precisam demonstrar força, desempenho e nunca falhar", comenta.
MOMENTO DE TRANSIÇÃO
Ela pondera, contudo, que o momento ainda é de transição, já que, embora uma parcela dos homens já tenha desvendado os prazeres de desenvolver sua afetividade, seja com as mulheres ou na criação dos próprios filhos, ainda há quem resista à ideia de reformular as relações de gênero estabelecidas até agora. Para o professor Ari Fernando Maia, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Unesp, esta repulsa não reflexe meramente a rigidez de pensamento destas pessoas, mas principalmente a recusa em abrir mão dos privilégios de que estes homens usufruíram ao longo da história.
"Estes grupos sempre vão entender que certos privilégios são seus direitos inalienáveis. E não entendem que este tipo de usufruto, ao mesmo tempo, cerceia o direito de outras pessoas. Portanto, vão sempre apontar algum bode expiatório para questionar o possível estabelecimento de direitos mais universalizados", observa ele, que também é professor de pós-graduação em educação escolar da Unesp de Araraquara.
| Divulgação |
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| Psicanalista Regina Navarro Lins |
Estopim
O professor Ari Fernando Maia destaca que o fortalecimento de grupos identitários, como o das mulheres e de LGBTs, ocorreu no contexto do conceito de direitos individuais, nascido muito tempo antes, durante a Idade Moderna. A psicanalista Regina Navarro Lins, contudo, salienta que estes movimentos começaram a se consolidar, de maneira efetiva, com o pioneirismo das mulheres, a partir da década de 1960, quando foi criada a pílula anticoncepcional. "Foi quando a mulher passou a escolher quando e se iria ter filhos. E se tornou mais livre", pontua ela. Com o ganho de visibilidade das pautas feministas e de outras minorias, como os LGBTs, os homens se viram diante de uma nova realidade - muitos deles descobrindo, de maneira mais receptiva, novas formas de exprimir sua masculinidade e outros ainda sentindo-se tirados da zona de conforto e desafiados a corresponder às novas reivindicações sociais. "Muitos já se libertaram, se deram conta de que o machismo envenena a vida da mulher, mas também a do homem. A masculinidade tóxica deixa a vida das pessoas limitada, mas há quem ainda esteja preso a estes antigos valores", reforça Regina.
Desempenho cobrado
Apesar das visíveis mudanças em curso, o professor Ari Fernando Maia, da Unesp avalia que a libertação do homem quanto à masculinidade tóxica ainda é apenas um ideal. Uma das explicações é que a cobrança por performance, um dos componentes deste padrão masculino negativo, afeta toda a sociedade contemporânea, indistintamente. "É o que se exige, hoje, de homens, mulheres, idosos, crianças. Todos precisam ter excelente desempenho em suas atividades. A pessoa é provocada, o tempo todo, a melhorar sua performance no amor, no sexo, na escola, no trabalho. E o sujeito é identificado a partir do que ele conquista em termos materiais. Não há outra régua para medir o sucesso de alguém", destaca.
Embora concorde que exista uma espécie de "crise cultural da masculinidade tóxica", ele destaca ainda que, na prática, os homens continuam detendo o poder. "Entre os biliardários ao redor do mundo, a maioria continua sendo homem. Na política, nas empresas, nos cargos de poder, ocorre a mesma coisa. Não podemos fechar os olhos para isso. Precisamos desenvolver um processo de crítica, e também autocrítica (no caso dos homens), para perceber, o mais radicalmente possível, as mais sutis manifestações desta forma de violência existente na nossa cultura", completa.
Biologia?
Há quem defenda que a exigência de características masculinas como força, agressividade e performance tem origem em fundamentos biológicos, já que, na pré-história, eram eles os responsáveis por caçar e prover o alimento da família. O professor Ari Fernando Maia sustenta, contudo, que recorrer a esta explicação é um exercício meramente especulativo.
"Levar esta discussão para a dimensão biológica não nos leva a lugar algum, até porque há inúmeros exemplos de sociedades matriarcais ao longo da História. Para discutir o estereótipo de masculinidade, que é uma construção social, a partir do fenômeno da biologia, seria necessário retomar o que foi a vida destes Homo sapiens, o que significava ser homem e mulher naquele tempo. Seria um esforço com razoável grau de especulação, o que, a meu ver, teria efeito inócuo", conclui.
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