Ciências

Câncer bucal em famosos. Por quê? Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

A margem lateral e a base da língua que se continua com o soalho bucal são os locais onde mais ocorrem as feridas do câncer bucal

Quando a celebridade tem uma doença, todos querem saber mais sobre ela. Recente e infelizmente, o apresentador de telejornal e outrora repórter da Globo José Roberto Burnier pediu afastamento da empresa para tratar um câncer bucal na base da língua, segundo divulgou-se na imprensa. Um dos mais famosos casos de câncer bucal afetou e tirou a qualidade e a vida de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, pois fumava e bebia.

Muitas pessoas "acham" que a má higiene bucal e os dentes malcuidados podem induzir o câncer, sendo que isto não é uma verdade cientifica e, biologicamente, não se sustenta. Pessoas com excelente higiene e boa alimentação, além de bonitas, famosas, ricas e jovens, também podem apresentar este flagelo. O câncer de boca não é hereditário, necessariamente é adquirido.

As causas do câncer bucal em nossos dias, são em ordem decrescente de importância:

1. Início de vida sexual precoce e promíscua, especialmente o sexo oral, por causa do papilomavirus,

2. Uso do tabaco em qualquer uma de suas formas: cigarro, tabaco de mascar, cigarro eletrônico, narguilé, charuto, rapé,

3. Ingestão de bebida alcoólica, mesmo as sedutoras e 'elegantes" como vinho, champanhe, coquetéis e aperitivos,

4. Substâncias químicas como inseticidas e herbicidas para aumentar a produtividade e que ficam impregnadas nos alimentos.

5. Produtos presentes nos alimentos industrializados, na poluição ambiental, nos cosméticos e nos produtos de higiene,

6. Radiação solar pelos raios ultravioletas na semimucosa labial inferior.

A alimentação tem muitas coisas boas, mas também substâncias cancerígenas até no mais simples e sedutor morango ou na balinha. Têm se ainda os saborosos produtos de higiene bucal, os belos cosméticos e as substâncias cancerígenas do ar que respiramos!

COMO ASSIM?

O câncer bucal mais prevalente é o de língua, especialmente nas margens laterais, aquelas partes que ficam encostadas nos dentes posteriores. A parte da língua fixada na parte inferior da boca se chama base da língua. As margens e a base da língua se continuam com o piso da boca chamado soalho, logo atrás dos dentes anteriores inferiores. Não existe limite nítido entre a parte inferior da língua e o soalho bucal, eles se continuam normalmente. Por que a parte mais afetada pelo câncer na boca é o conjunto margem lateral, base de língua e soalho bucal? A resposta pode ser uma outra pergunta: - Por que no dorso da língua, a sua parte de cima, não se tem casos de câncer e nem na parte anterior do palato duro?

Além de passar pelas margens, base da língua e soalho bucal, as substâncias cancerígenas ali se acumulam e permanecem mais tempo em contato. Isto ocorre para saborearmos mais e também pela ação da gravidade. O maior tempo de contato com a mucosa permite que uma substância cancerígena atue potencializando a outra na geração das alterações no DNA que resultem no câncer. A maior prevalência nas margens laterais, base da língua e no soalho bucal também se justifica pela menor resistência física de seu revestimento. O epitélio destas regiões é muito fino com 10 a 15 camadas e a sua superfície tem uma quase ausência de queratina e de um tipo bem permeável chamado paraqueratina.

O palato duro, o céu da boca, tem um revestimento com 30 camadas e superfície com espessa camada de queratina e mais resistente, chamada de ortoqueratina. Para uma substância química cancerígena penetrar no palato, é muito difícil, mesmo para o vírus HPV. A ação da gravidade que favorece e a passagem constante da língua e dos alimentos fazem uma autolimpeza no palato e dorso, desfavorecendo a ação das causas do câncer.

MALUQUICE!

As vezes me pergunto: o que faz mais mal: o que entra ou o que sai pela boca? Já pensou se as bobagens que falamos quando carregadas de maldades, mentiras e falsidades também provocasse câncer na língua e lábios? Talvez os humanos seriam melhores, mais bondosos e generosos com o próximo!

No Brasil, a cada ano ocorrem cerca de 15 mil novos casos de câncer bucal e as suas causas atingem todas classes sociais, inclusive os famosos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.

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