Bauru chegou aos 123 anos nesta quinta-feira (1). A história da cidade quase se confunde com a de dona Maria Odília Carvalho Simonetti, que comemora, neste sábado (3), seus 100 anos de vida, repleta de conquistas e de uma vitalidade incrível para conversar e relembrar o que viu e viveu.
Com oito netos, nove bisnetos e cinco tataranetos, Odília é matriarca da família Simonetti, que se destacou em Bauru pelo pioneirismo na comunicação, especialmente no rádio e mais tarde na televisão. Ela é nora de João Simonetti, homem visionário e amigo pessoal de Getúlio Vargas. Certa vez, Getúlio foi recebido em sua casa com uma festa quando esteve em Bauru. A revelação foi feita em uma entrevista concedida ao JC em 2013. João Simonetti colocou no ar a primeira rádio do município, a PRG-8 Bauru Rádio Clube, a segunda emissora do Interior.
Foi pioneiro também na implantação da TV Bauru, a primeira no Interior da América do Sul, na década de 1960.
Odília diz que o pioneirismo do sogro não era condizente com a capacidade dele em mexer com as finanças das empresas. Foi aí que ela começou a trabalhar nas emissoras que, com o tempo, acabaram sendo dirigidas pelos filhos que teve com Leônidas Simonetti: Sílvio Carlos (Syca), Paulo Sérgio e João Simonetti Neto, radialistas de peso do Interior Paulista. Com um sorriso acolhedor, Dona Odília recebeu a reportagem do JC para uma entrevista ontem, um dia antes do aniversário.
JC: A senhora completa 100 anos. O que significa isso?
Maria Odília: Eu valorizo muito a vida. Penso que, por valorizá-la tanto, estou vivendo tanto assim (risos). Por mais que me contrariem com alguma coisa, por mais que me aborreçam, eu não guardo sentimentos ruins. Tenho a saúde em dia, não tenho tremores da idade, nem esquecimentos. Meu médico disse que vou até os 120 anos.
JC: Quando chegamos, os porteiros disseram: "Dona Odília é a nossa relíquia"...
Maria Odília: Estou aqui há um mês e as pessoas já trouxeram um monte de presentinhos, doces e pãezinhos. Tenho muitos amigos, todos gostam de mim. E eu deles.
JC: Como é a sua rotina?
Maria Odília: Até um tempo atrás, eu fazia cursos de artesanato. Agora, estou visitando mais meus amigos e lendo bastante. Ali, pertinho da sacada, fiz um cantinho para minha leitura. Não gosto de romances. Prefiro biografia. Li muito a dos músicos. Meu marido era pianista e eu li todos os livros que ele tinha. Mas não leio mais essas porque me dá saudade do Leônidas.
JC: Que tristeza a senhora conheceu na vida?
Maria Odília: Somente com a morte do meu filho, o Syca (Sílvio Carlos Simonetti), eu vi que a vida não era toda essa maravilha. É a maior dor do mundo perder um filho (pausa). Se o filho soubesse o quanto ele vale, não iria embora. Mas, depois, eu entendi que Deus estava certo e o livrou de muitos aborrecimentos.
JC: A senhora esteve sempre ao lado da evolução do rádio em Bauru. Qual o valor dele para a senhora?
Maria Odília: Eu gostava mais antigamente das músicas lindas da época. Hoje, as músicas não estão mais bonitas. Desde que eu perdi o Sica, morreu um pouco o rádio em mim. O Sica amava o rádio, dava a alma para o que fazia. Meus três filhos nasceram embaixo das torres das emissoras, que ficavam no quintal de casa. Depois da morte deles, não quis nem mais rádio em casa. Recentemente, o Paulo Sérgio trouxe um, mas já mandei desligar também.
JC: A senhora conheceu muitos artista da época de ouro do rádio?
Maria Odília: Conheci quase todos, porque eles cantavam durante o dia na nossa rádio e, depois, à noite, iam para os bailes. Francisco Alves, Silvio Caldas, Orlando Silva... eram maravilhosos. Eu acompanhava tudo com meus filhos. O rádio continua forte nos dias de hoje porque você pode levá-lo para todo o lugar. Isso nunca mudou. O tempo passa, mas o rádio fica. Eu acho que o rádio mudou, sim, mas na forma de transmitir as notícias e na programação musical.
JC: Como está a política no Brasil, hoje?
Maria Odília: Faltam grandes homens e mulheres, mas os bons têm medo da política. Têm medo de se contaminar. As mulheres estão dominando, os homens que não abram os olhos.
JC: O que significa Bauru para a senhora?
Maria Odília: Estamos em um progresso tão grande. Eu saio por aí e nem sei mais onde estou (risos). Vamos ver se, na próxima eleição, conseguimos melhorar mais.
JC: O que é a vida para a senhora, dona Odília?
Maria Odília: A vida é uma bênção. O maior presente. Eu adoro a vida e tenho pena de quem diz que não a ama. Amigos, filhos e netos... todos estão nela. Viva a vida!
JC: Um recado para as novas gerações.
Maria Odília: Cuidem da saúde, da alma e ouçam boa música, se der.