A chuva não dava trégua e a noite chegou mais cedo, momento em que um barco conduzindo duas pessoas e parecendo transportar um tonel, veio em nossa direção atendendo o aceno que fizemos com a camisa segura pela mão girando acima da cabeça, a exemplo dos torcedores de uma equipe de futebol, comemorando um gol salvador.
Tratava-se de dois paraguaios em viagem a Corumbá, de barco, transportando couro curtido de jacaré (na época a matança não tinha controle e a fiscalização inoperante abria oportunidade para a ação dos caçadores) para comercializá-los. No centro do barco havia um tonel de gasolina com capacidade de 200 litros o que bastava para chegar com folga até a cidade destinada.
Explicamos nossa situação aos paraguaios e conseguimos um empréstimo de 10 litros de combustível, o suficiente para chegar ao rancho. Em pouco mais de 1 hora de viagem nosso barco e o dos paraguaios encostaram no barranco defronte ao rancho Quinzebinho. Ali, pagamos a dívida, devolvendo os 10 litros de gasolina e mais 5 litros de gratificação aos solidários paraguaios. Sem a valiosa ajuda daqueles viajantes, teríamos de passar a noite segurando ramos de arbustos até que no romper do dia seguinte alguém nos ajudasse.
Todas as despesas da pescaria foram somadas e divididas pelo número de pescadores, revelando a parte de cada um. Todos pagariam os gastos em dinheiro vivo ao organizador da pescaria que até o seu encerramento respondeu pelas despesas, considerando que não houve caixa ou fundo inicial, ou seja, arrecadação de dinheiro antes e durante a pescaria.
Os peixes fisgados que não foram muitos e ficaram congelando no freezer, tiveram a divisão igualitária entre os companheiros, num sistema de partilha justa, em reconhecimento do companheirismo aproximando todos ao planejamento da pesca traçado todo o dia.
Os que pescaram menos ficaram com o mesmo número daqueles que tiveram melhor desempenho. Subimos o rio de barco, antes da aurora, com as malas e isopores com peixe congelado rumo a caminhonete que ficou guardada ao lado de outras no ancoradouro da balsa (hoje, ponte de concreto) e dali para a estrada encarando com bom humor os 1.150 km até Bauru.
Na cidade de Miranda, situada a 150 km da balsa do rio Paraguai, um dos companheiros comprou na peixaria do Alemão alguns pacus para melhorar sua cota de peixe. A viagem transcorreu sem incidentes até Três Lagoas onde à beira da rodovia havia um posto de fiscalização do ICMS.
Um dos poucos funcionários que se achavam na cabine, dela saiu acenando para a caminhonete parar. Examinou cada caixa de isopor com peixe, encontrando tudo dentro da normalidade, exceto uma delas que, além dos peixes pescados, continham aqueles comprados na peixaria do Alemão, mas com a nota fiscal comprovando a aquisição.
O funcionário entendeu que a nota fiscal do excesso de peixe não excluía o pagamento do ICMS, muito embora tenha recebido a explicação de um dos nossos companheiros que o imposto seria pago pelo comerciante que vendeu os peixes e emitiu nota fiscal. Não houve entendimento entre eles e a demora para surgir a solução definitiva que liberasse a caminhonete, a carga e todos nós, parecia estar com um agente que, do abrigo, acompanhava o falatório.
Alfredo Enéias Gonçalves d'abril, pescador, aposentado.