Turismo

Veneza

Daniel Nunes Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Sereníssima. Assim era chamada Veneza, na Itália, em seus tempos áureos de república, do século 9.º ao 18. Visto de longe, o principal núcleo urbano daquele arquipélago de 118 ilhas, conectado por charmosas 391 pontes sobre 150 canais, era sinônimo de paz. A tranquilidade dos remadores que transportavam, em pé nas gôndolas, a população pela grande Lagoa de Veneza sempre foi, desde que elas surgiram no século 11, um retrato convidativo da cidade serena.

Quem desembarca na alta temporada do verão europeu na Veneza do século 21 e tenta cruzar a Ponte Rialto, uma das atrações arquitetônicas favoritas da capital da região do Vêneto, ganha uma impressão bem distinta daquela visão calma que a cidade transparecia até o século 18, quando o turismo começou a se desenvolver ali. "Agitadíssima" poderia ser um adjetivo mais adequado para a Veneza de hoje - ao menos de dia.

Nos horários de pico, quase não sobra um metro livre na famosa ponte branca do século 16, a mais antiga das passarelas sobre o Grande Canal, grande via de tráfego aquático local. É tanta gente de fora se acotovelando para tirar selfie, especialmente nos períodos em que navios de cruzeiros despejam milhares de turistas de um dia, que fica difícil achar graça no passeio. Veneza se tornou a principal vítima do chamado overturismo.

É justamente pelo impacto que tem sofrido em razão das excursões em massa que Veneza virou manchete. Em uma manhã de domingo de junho passado, o navio MSC Opera, com 13 andares e 80 metros de comprimento, perdeu o controle e bateu na doca e em um barco turístico do Canal de Giudecca. Em julho, foi a vez de os jornais internacionais repercutirem a multa de 950 euros (cerca de R$ 4 mil) que um casal de turistas alemães levou, antes de ser expulso da cidade, por ter sentado na escadaria da Ponte Rialto para preparar seu café da manhã.

Revoltados com a imagem sempre impactante de navios modernos gigantescos - são 502 por ano - beirando a beleza delicada de pequenos palacetes seculares, grupos de moradores têm repetido protestos em campanhas como a Não aos Grandes Navios, pedindo o fim das embarcações de cruzeiro na Lagoa de Veneza. As reações das autoridades, como a multa para quem fere o "decoro" da cidade - caso dos jovens da Alemanha - ainda não se mostraram eficientes para acalmar o ânimo dos residentes, que volta e meia penduram placas como "turistas não são bem-vindos, vão embora!"

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