Brasília - A tentativa do Palácio do Planalto de substituir nomes de dirigentes da Receita Federal levou à troca do número dois do órgão.
O subsecretário-geral da Receita, João Paulo Ramos Fachada, será substituído pelo governo Jair Bolsonaro por se posicionar de forma contrária às interferências. A troca de Fachada teve aval do secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra.
João Paulo Ramos Fachada Martins da Silva, será substituído no posto pelo auditor fiscal José de Assis Ferraz Neto, que atualmente está em exercício na área de fiscalização da Delegacia da Receita Federal em Recife (Pernambuco).
A mudança do número dois da estrutura da Receita ocorre em meio à crise que atinge o órgão, acusado por integrantes do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF) de atuação política.
O próprio presidente Jair Bolsonaro fez críticas públicas recentes à Receita por ter promovido o que classificou como uma "devassa" na vida financeira de familiares seus no Vale do Ribeira (SP). Bolsonaro também se queixou de ter sofrido perseguição do fisco durante a campanha eleitoral do ano passado.
As críticas levantaram especulações de que o próprio secretário especial da Receita, Marcos Cintra, poderia ser afastado do cargo. Na semana passada, porém, Bolsonaro afirmou que o secretário "por enquanto está muito bem".
Fachada era um nome respeitado entre auditores e participava de discussões importantes, como a da reforma tributária.
A tendência, no entanto, é de uma troca mais ampla na cúpula da Receita.
O clima no órgão é de insurreição contra a tentativa de interferência política por parte presidente Jair Bolsonaro e do núcleo próximo a ele.
TRÊS PODERES
A Receita Federal costuma reagir em situações de pressão política por troca de cargos. Atualmente, está sofrendo pressões dos três Poderes após investigações sobre autoridades.
Auditores-fiscais estão surpreendidos com o atual nível de ataques e interferências no órgão, principalmente por partirem do próprio Palácio do Planalto.
Desde que assumiu a presidência da República, Bolsonaro contesta ações de órgãos de controle para investigar seu núcleo familiar e pessoas próximas -Renato Bolsonaro, irmão do presidente; o senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente; e Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio.
"Quando ele escolheu vir para a vida pública, fazia parte do pacote que toda sua família estaria sujeita a uma maior fiscalização. Ele diz que é perseguição, mas, na verdade, é consequência de tratados internacionais que o Brasil assinou", afirmou o presidente da Unafisco (associação nacional dos auditores-fiscais da Receita), Mauro Silva.