Articulistas

Porque alta vive

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Nos penteados exatos, a imagem limpa, condensada à alma vaidosamente vestida. Mendigos da admiração alheia. Cosmético, o pincel dos relacionamentos é pintado, agora, pelo valor fenotípico. Na vida feicibuquiada, superlativam-se alegrias fixas e consonantais. Kkkkk. Chico tem razão. Se de tão gorda a porca já não anda, de tão maquiada, a pele já não poreja. Em espetáculos de si mesmo, a vida - líquida - se esvai.

Homem-cometa. Metaforizado pelo protagonismo imediatista, ei-lo indivíduo individuado, representante de uma vida construída sob o compasso da empáfia. Nessa geometria de vaidoso contorno, assume proporções de totens narcísicos, em cujas lateralidades residem atos e extensões de elogios para si. Incorrigível, carrega, pois, em suas feridas expostas recusas a ataduras.

Hamlet é mais que atual. O ser - resignado - cede espaço ao aparecer. A placa é espalhafatosamente um outdoor. A lâmpada é um holofote. Nesta busca pela satisfação incondicional, substitui-se o mérito pela fama, exibindo aos outros quão dilatada é nossa autoestima. Também, viver é ser visto, visto que ver é viver. A vaidade da vida moderna é vitrinizar sucesso. É glamourizar posses revestidas de poses. Na verdade, a vaidade é um curioso autismo!

Necessário construir e valorizar relacionamentos de homem-estrela. Estrelas são metáforas de pedidos. Metonímias de celebrações. Fontes renovadoras de expectativas. Assim como nos ensina a sabedoria de Ricardo Reis: "Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes", o poeta nos aconselha a depositarmos nossa essência em nossas ações, vivendo a vida em sua plenitude. Em "Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.", inspira-nos a viver como a lua, elevada. Isso porque ao oferecermos o nosso melhor, sem excluir o que somos, nosso valor será reconhecido e, portanto, brilharemos tal qual a lua, as estrelas. E se desconhece-se o que ganharíamos na insistência de cometas, sabe-se o que poderíamos perder ao subestimarmos as estrelas.

Comentários

Comentários