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A morte que vem pelo WhatsApp

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 2 min

Aos 67 anos, dona Marilda aprendeu a usar o WhatsApp (ou 'Zap Zap', como ela chamava). Apesar da resistência, utilizava para conversar com os filhos e netos. Só mandava áudios. "Não consigo apertar essas letras pequenininhas", dizia, com um sorriso no rosto. Sorriso, aliás, que era sua marca registrada.

Um dia, contudo, essa marca virou cicatriz. Dona Marilda foi dilacerada por uma dor muito mais violenta do que a da própria morte. Uma dor que nenhuma mãe deveria sentir. Voltando do trabalho de entregador, seu filho caçula colidiu a moto de baixa cilindrada contra um carro qualquer em uma avenida qualquer.

Nunca mais dona Marilda sorriu daquele jeito. Ela dizia para todos que, naquele dia, sua alma tinha morrido junto com seu filho. Mas, se a alma estava morta, seu corpo precisava seguir. Toda manhã, ela tirava forças e se levantava com o toque do despertador. Antes de abrir os olhos e também instantes depois, o filho que partira de forma tão brutal era o único pensamento que enchia a sua mente e esvaziava o seu coração. Mesmo assim, juntava forças e seguia...

Até que, um dia, dona Marilda acordou com um som diferente. Não era o despertador. Era uma mensagem em um grupo do 'Zap'. Grupo que ela fora colocada e nem sequer sabia como sair. Era uma sequência de fotos.

Um jovem em uma poça de sangue. Capacete e cabeça igualmente rachados a ponto de ver um pouco da massa encefálica. O fêmur triturado rasgava a pele como seda. Rasgos que se repetiam pelo corpo friccionado contra o asfalto quente. O braço quase arrancado do resto. Os olhos estatelados deixavam claro que aquele ali não enxergava mais nenhum fio de vida.

Dona Marilda sentou na beira da cama e chorou com a mesma dor de quando recebeu a notícia da tragédia. Era o seu caçula. Naquele momento, dona Marilda morreu mais uma vez. Naquele momento, a humanidade morreu mais uma vez. Morreu ao matar por dentro uma mãe pelo puro e simples prazer de clicar, se chocar e encaminhar. Encaminhar para o grupo da família, para o do futebol, para o do churrasco, para o do trabalho, para o da igreja, para todos.

Encaminhar para multiplicar a dor já imensurável do outro. Encaminhar. Encaminhei. Encaminhamos. E caminhamos. Caminhamos para a morte de qualquer traço de ser humano que ainda possa existir dentro de nós.

Mas que caminhos tão errados pegamos para estarmos nos transformando nesse tipo de "gente"? Se alguém souber a resposta, por favor, me encaminhe...

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