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Uma boneca na cama

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Desempregado havia seis meses. Desperdiçava parte do tempo vagabundo olhando vitrines. Distraíam-no gravatas, sapatos, blazers, ternos, o que, enfim, lhe cutucasse a vaidade. Mas que desistissem dele as liquidações gritantes, não mexeria no seguro- desemprego, contado e trancado na gaveta.

Na vitrine, uma loira esguia. A manequim exibia um longo de seda vermelho, os pezinhos brancos à mostra. Encarou-a. Teve a sensação de que ela o queria tanto quanto ele a desejava. Loucura! Era apenas uma boneca de vitrine. Melhor sair dali. Não conseguiu, as pernas travaram.

Quanto custa? É um vestido de seda de alta qualidade, três mil. Não, a manequim. Como assim? A manequim não está à venda. Põe preço, eu levo. O vendedor percebeu a insanidade da transação e negociar com a loucura era sempre vantajoso. Não vendo a manequim, só o vestido. Põe preço, repito, eu pago. O senhor é quem sabe, mas vai ter que levar o manequim masculino também, porque os dois trabalham juntos vendendo elegância casada. Não, só queria a boneca. Não teve jeito, acabou comprando os dois. Dividiu em 10 vezes no cartão, um saque doído na gaveta do seguro desemprego. Fazer o quê? Coisa do demo. Daria um jeito, se Deus assim quisesse e o diabo permitisse.

Em casa, recebeu a mercadoria. Rasgou nervosamente o papelão desembrulhando a Graciele, já devidamente batizada. Ficou fascinado com a nudez branca - que pezinhos! - ainda que faltasse detalhe importante. Deitou-a na cama, cobriu-a com lençol. Trancou o boneco no guarda-roupa, embrulhado como veio.

Teve o cuidado de tomar um bom banho, barbear-se e borrifar no pescoço velha colônia; sob o roupão, a melhor cueca. Estava pronto. Tirou o lençol e atirou-se sobre a boneca pelada. No primeiro beijo, assustou-se com a voz acusadora: "Solta já o meu amor! Abre o guarda roupa, fdp!" Sentiu o corpo dela gelado. Pulou da cama protestando, era só uma boneca, mercadoria paga, não tinha essa de querer, pertencia-lhe só de corpo, porque alma não tinha. Tentou agarrá-la novamente, mas o corpo gelado o repeliu. "Solta o meu amado! Abre o guarda-roupa, corno desgraçado!"

Estava ficando louco. Nada daquilo podia estar acontecendo. Merda! Doente, desempregado, falido e com uma boneca boca-suja na cama. Teria cara para devolver a compra? Amordaçou a Graciele e a trancou no mesmo guarda-roupa. Não era isso o que ela queria? Dele nunca mais se soube. Lugar incerto e ignorado.

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