O objetivo era chegar ao Museu do Prado quando o Google Mapas indicou que eu virasse à direita na Calle Cervantes Dali, bastava descer a rua por cinco minutos e estaria no meu destino. Esse tempo se transformou em meia hora assim que me deparei com o nome da rua - do meu escritor favorito entre os clássicos. Num bairro chamado Las Letras e numa rua batizada de Cervantes, supus que alguma coisa da literatura havia de encontrar ali. E encontrei não uma, mas duas. Ou melhor, dois.
"Aqui viveu e morreu Miguel de Cervantes Saavedra, cuja sagacidade admira ao mundo" é o que se lê num edifício amarelo logo no início da rua para quem vai em direção ao Prado. Apesar de o edifício estar conservado e, ao lado, o comércio se encher de referências e orgulho de ocupar o mesmo prédio que o autor de Dom Quixote de La Mancha ocupou, não há mais do que a fachada para se ver.
O encontro inesperado com a casa de Cervantes valeu o dia. Mais a frente, palavras gravadas no chão me fizeram parar novamente. "Nesta casa foi onde viveu e morreu, em 26 de agosto de 1635, Lope Félix de Vega e Carpio, chamado 'a fênix da sabedoria', cuja fecundidade literária transpassou o limite do crível e cultivou todos os gêneros da literatura".
Para nós, Miguel de Cervantes é a figura mais famosa da literatura espanhola. Mas, no início do século 17, em pleno Século do Ouro, quem ocupava essa posição era o dramaturgo Lope de Vega, cuja casa-museu encontra-se, ironicamente, na Calle Cervantes (mas há uma Calle Lope de Vega, paralela à Cervantes). Ironicamente porque os dois escritores, apesar de contemporâneos e vizinhos, ficaram conhecidos pelas alfinetadas que trocavam.
Lope de Vega, que passou por diversos gêneros, do lírico à prosa, ganhou fama sobretudo com suas peças teatrais e, quando conheceu Cervantes, já era um nome aclamado. Os dois até chegaram a ser amigos, dedicando versos um ao outro. Mas a amizade terminou quando Cervantes, que, ao contrário de Vega, vivia na penúria, conseguiu finalmente emplacar uma obra: a primeira parte de Dom Quixote. Vega, não se sabe se por inveja ou por gosto, criticou publicamente o escrito do colega, dando início ao conflito literário espanhol.