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Sobre rastros afetivos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Nostalgia é a melancolia que sabe sorrir. Está na moda. Para o diretor do filme "Yesterday", Danny Boyle, as incertezas da atualidade transformam nostalgia em refúgio. Daí o tremendo sucesso de produções recentes como "Rocketman", "Bohemian Rhapsody" e "Mamma Mia".

Ocorre que os tempos andam embaralhados. Antes, para rever uma antiga foto de família, era preciso desbravar caixas velhas esquecidas, garimpar envelopes amassados, fuçar em álbuns e mais álbuns. Investigar se havia ali mais de uma fotografia no mesmo plastiquinho, perguntar a todos de casa (e mais alguns de fora) da tal foto pretendida... E nada achar. Procurar de novo. Achar.

Agora? Um clique resolve. Ou basta estar online. Nem será preciso se dar ao trabalho de procurar. Alguém vai postar ou "enviar pro grupo". Talvez seja um tanto nostálgico dizer isso, mas nostalgia verdadeira é mais pausada do que uma curtida relâmpago. Anda um pouco atropelada nesses tempos dinâmicos.

Há uma cena no filme "Aquarius" em que a escritora Clara, personagem de Sonia Braga, é entrevistada em seu apartamento na Praia de Boa Viagem. Clara é perguntada se usa a tecnologia para o que gosta. Diz que sim, mas vai até a estante, tira um disco de vinil e conta uma história sobre ele: era original dos EUA, foi comprado em Porto Alegre, veio com um artigo dentro, carregava um sentimento... Quando sai a matéria no jornal, o título é: "Eu uso MP3".

Em outra cena, questionada pelos filhos sobre o motivo de não se mudar, já que todos os outros apartamentos do prédio já foram vendidos, ela desabafa: "Com vocês é assim: se não gostam é velho. Se gostam é vintage".

O artigo de hoje é só para dizer o seguinte: tudo o que é novo deve ser considerado, mas, se vamos seguir rastros afetivos, que seja sem afobação. Uma velha foto, por exemplo, é obra de arte do tempo. Merece admiração sem pressa. Para sem pressa gerar a nostalgia que sabe seguir.

Uma alegria que possa durar.

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