Você já leu Flicts? Não? Pois então leia. O livro, que está comemorando 50 anos, foi escrito por Ziraldo, mas é atualíssimo.
Flicts é uma cor "diferente", que não consegue se encaixar no arco-íris, nas bandeiras e em lugar nenhum, e que ninguém, a princípio, reconhece seu merecido valor. Ao longo do livro, Flicts vai se conformando que "não tinha a força do bermelho, não tinha a imensidão do amarelo, nem a paz que tem o azul". Após procurar por seu lugar no mundo, Flicts um dia acaba por deixá-lo...
O livro foi escrito no ano em que o homem pisou na Lua. E Flicts, que não tinha lugar na Terra, descobre ser a cor da Lua! E para não restar dúvidas disso, Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, confirmou a informação, autografando o livro com a frase: "A Lua é Flicts".
Ziraldo conta que era julho de 1969 e o mundo ainda estava atônito com a chegada do homem à Lua. O escritor levou a Fernando de Castro Ferro, editor na Expressão e Cultura, a proposta de transformar as tirinhas semanais que publicava na imprensa no livro Jeremias, o Bom. Saiu da editora com o aval de Ferro e uma encomenda: um livro para o público infantil.
Ziraldo topou e, em apenas dois dias, criou Flits. A obra que marcou a estreia do autor na literatura infantil é também um divisor de águas na história do livro no Brasil. Com um projeto gráfico arrojado para a época e que ainda hoje surpreende os leitores, Ziraldo transformou as cores em personagens. Produzido durante a ditadura militar, o livro conta a história de uma cor que não encontra o seu lugar no mundo e, de forma poética, abstrata e sensível, possibilita uma interpretação aberta. Para uns, Ziraldo fala de liberdade e exílio; para outros, de preconceito e diversidade.
Em Flicts, imagem e palavras se interrelacionam para construir a narrativa. Em uma época em que as imagens eram figurativas, o autor foi disruptivo. E subverteu ainda o processo de produção. Utilizando um livro impresso como base, fez as ilustrações com pedaços de papel colorido, tesoura, estilete e cola. A falta das ferramentas tradicionais não foi obstáculo, mas sim combustível para a criatividade do autor.
"Quando eu terminei, percebi que tinha feito um livro fora dos padrões", contou Ziraldo, em entrevista por WhatsApp, realizada com ajuda de sua sobrinha Adriana Lins, que organizou a edição comemorativa da Editora Melhoramentos. "Tem livro que permanece, tem livro que fica logo esquecido. Flicts foi um desses livros que permaneceram", disse o autor, de 86 anos, que se recupera de um AVC sofrido em 2018.
E não foi apenas o autor que percebeu de imediato a força de Flicts. Em nota publicada já na primeira edição e que é reproduzida nesta comemorativa, o editor Ferro escreveu: "Poucas vezes terá um autor conseguido entusiasmar um editor com a rapidez e a intensidade que fui 'vítima', quando Ziraldo acabou de me contar a história de Flicts. (...) As palavras se tornaram inúteis. Ziraldo sabia o que havia criado e também sabia que eu tinha 'sentido' totalmente sua extraordinária obra".
"Foi um impacto de crítica e de público. O lançamento eram festas que duravam o dia inteiro. Em três meses, os 10 mil exemplares se esgotaram", conta Adriana. A repercussão na imprensa foi grande e o aproximou do escritor Carlos Drummond de Andrade, que publicou o texto O Coração da Cor festejando a obra "Que é Flicts? Não digo, não quero dizer. Cada um que trave contato pessoal com Flicts, e sinta o que eu sinto ao conhecê-la: um deslumbramento, um pasmo radiante, a felicidade de renascer diante do espetáculo das coisas em estado puro."