Saber e sabor são iguais na raiz da palavra e nos dão um prazer indescritível de sentir sem um nome específico, que talvez se aproxime do que chamamos de êxtase. Como é bom este prazer gostoso ao comer, beber, engolir e lamber.
Imagine a comida bater no céu da boca e sentir o que foi ingerido com a língua levando a massa em dobras e redobras, em um sorve e reabsorve de sabores. O palato tem alguns botões gustativos, verdadeiros sensores neurais para este sentido, mas a grande maioria, está na língua! O nome palato foi dado por que se chegou a pensar que o gosto ou paladar era captado exclusivamente no céu da boca ou teto desta maravilhosa cavidade como se fosse um dos telhados da cidade.
É romântico dizer que na vida, se perder o teto da casa, terás como telhado o céu estrelado e clareado pela luz da lua a refletir todo o brilho do sol que puder captar para se explicitar e exibir-se aos corações dos apaixonados. Você, provavelmente, não valoriza tanto quanto deveria, mas já pensou viver sem o céu da boca?
Deve ser um inferno!
Não é imaginável, mas tente comer ou beber sem o palato e os lábios com seus movimentos e tegumentos funcionais e sensuais! O nariz será entupido e inundado por alimentos. As ondas dos líquidos rebaterão nas conchas nasais, tal qual as águas revoltas nas rochas do mar, refluindo-se para todos lugares junto com a tosse, enjoos e engasgos em seus movimentos.
Como será beber sem o lábio completo, faltando-lhe uma parte! E o constrangimento dos líquidos escorrerem pela roupa junto com a sua dignidade puxada pela vergonha total de existir! Fica quase impossível comer com as pessoas ao lado, menos ainda se for em um jantar ou restaurante.
O amor tem a parte sexual e requer um ritual, por mais maluco que seja. Sem os lábios e palatos completos, deve ser muito difícil amar, pois a sociedade nos padroniza com seus estereótipos. Os dedos escorrendo carinhosamente pelos detalhes da face em suas linhas tortuosas, um olhando no outro, ouve-se o sussurrar a dizer: "eu te amo mesmo que diferente dos outros e de mim!" Quantos tem este poder da sublimação do físico para o lado espiritual do ser amado? Talvez os anjos!
Tento compartilhar meus sentimentos com as dificuldades dos fissurados labiais e ou palatinos, com os sindrômicos que não controlam seus movimentos, com os pacientes oncológicos que operados ficam mutilados na boca e face, com os acidentados que perderam seus maxilares e dentes, com os assustados portadores de lesões bucais, assim como com os vitimados da violência doméstica e urbana na guerra civil que vivemos!
Uma ong, a "Céu da Boca", foi criada em São Luís, no Maranhão, para que singelamente, possa dar esperança e devolver, mesmo que seja em parte, a alegria de quem procura ter a boca sã e a face restauradas junto com a autoestima e a coragem de dizer: superei, agora quero buscar os outros sonhos na minha vida!