Não é apenas a vida financeira a única prejudicada quando alguém enfrenta dificuldades para pagar contas. Este tipo de desestabilidade também pode comprometer a saúde do corpo e da mente, gerando uma série de desordens que impactam em todas as esferas da vida de uma pessoa.
Levantamento realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) revela que 69% das pessoas endividadas sofrem de ansiedade. Também estão entre os sentimentos mais comuns, despertados pela má situação financeira, a insegurança (65%), o estresse (64%), a angústia (61%), o desânimo (58%), o sentimento de culpa (57%) e a baixa autoestima (56%).
A pesquisa, que ouviu consumidores em todo o País, revela, ainda, que o desequilíbrio financeiro impacta até mesmo na vida profissional e social dos entrevistados, já que 25% deles afirmaram ter ficado mais desatentos e menos produtivos no ambiente de trabalho.
Professora de graduação e pós-graduação do departamento de psicologia da Unesp, a doutora em psicologia clínica Sandra Leal Calais destaca que problemas financeiros são grandes estressores mentais, já conhecidos de longa data pela Ciência. Em uma sociedade com pouca disciplina financeira e que é estimulada ao consumo a todo tempo como forma de obter status, aceitação social e realização pessoal, não surpreende o grande contingente populacional imerso em dificuldades para pagar suas contas e, por consequência, em sofrimento devido a isso.
"Percebemos que muitas pessoas compram porque têm desejo e não porque precisam. Em uma época de relacionamentos tênues, pouco genuínos, associada à pressão do dia a dia, o ato de comprar traz a sensação de que a pessoa está viva.
Muitas vezes, inclusive, é uma forma de projeção do sucesso do artista ou do atleta que divulga o produto que esta pessoa está comprando", detalha.
Crise
A psicóloga explica que, para esta parcela significativa da população, o aspecto financeiro é fonte constante de transtornos e sofrimento. O estresse e a angústia provocados pelo desarranjo no orçamento, porém, também são comuns em crises econômicas, como a recentemente enfrentada pelo País, que gerou uma onda de desemprego, deixando milhões de pessoas sem renda (leia mais na página ao lado).
"E no Brasil, a maioria não tem o hábito de guardar dinheiro para situações de emergência. Assim, para quem possui uma genética e um ambiente mais vulneráveis, o estresse permanente favorece o desenvolvimento de doenças mentais, como a depressão", destaca.