Número de pacientes atendidos nos serviços públicos de saúde mental de Bauru cresceu 25% em apenas dois anos
A crise na economia do País, que arrastou milhares de pessoas ao desemprego em um passado recente em Bauru, foi uma das principais responsáveis pelo aumento do número de pacientes atendidos nos serviços públicos de saúde mental mantidos pela rede municipal.
A constatação é feita pela Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que mantém cinco unidades para tratamento de transtornos mentais, entre eles um ambulatório e quatro Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Atualmente, eles somam 16.579 pacientes ativos, número 25% maior do que o contabilizado há apenas dois anos, em 2017, quando a lista era de 13.222 atendidos. Os dados consideram as pessoas que estão realizando tratamento nas unidades, bem como as que estão em fase de monitoramento após a alta - uma etapa que tem duração de até três anos, dependendo do tipo de doença.
"Damos este prazo porque há casos em que o paciente, por alguma necessidade, precisa retomar o tratamento. Nos casos de alcoolismo, por exemplo, sabemos que a taxa de recuperação é de, no máximo, 20%", pontua a diretora da divisão, a terapeuta ocupacional Janice Maria Moreira Gomes.
Segundo ela, o serviço passou a atender 3,3 mil a mais em dois anos, principalmente, em razão das dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias, tendo como pano de fundo a perda de mais de 8 mil postos com carteira assinada em Bauru, entre 2015 e 2017.
"A perda abrupta de renda gera sofrimento e, em muitas situações, pode contribuir para conflitos familiares e o abuso de substâncias psicoativas. A vulnerabilidade social em geral mexe demais com o interior das pessoas", observa. Vale destacar, também, que, com a crise econômica, boa parte das famílias se viram forçadas a migrar de convênios de saúde para a rede pública.
FREQUENTES
Segundo Janice, os transtornos mais comuns tratados nos Caps são crises de ansiedade, depressão e ideação suicida, além da dependência química.
O atendimento, feito por uma equipe multidisciplinar - que inclui psiquiatras, clínicos gerais, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e enfermeiros, ocorre nos quatro Caps da cidade, sendo dois destinados a usuários de álcool e outras drogas (um para adultos e outro para crianças e adolescentes) e dois para as demais doenças mentais (adulto e infantojuvenil).
"Cada paciente vai uma vez por mês até três vezes na semana na unidade, dependendo da gravidade do caso", acrescenta a diretora. No Caps Infantojuvenil, os adolescentes podem, ainda, permanecer por até 14 dias seguidos para tratamento de crises.
Em não raras ocasiões, os pacientes permanecem por décadas vinculados aos serviços de atenção psicossocial, com necessidade de administração de medicamentos para o resto da vida. "Infelizmente, a sociedade vem adoecendo cada vez mais. As pessoas vivem apressadas, pressionadas a alcançar sempre resultados melhores. Isso gera ansiedade e baixa tolerância à frustração e, por consequência, transtornos mentais", completa.
Situação de crianças e adolescentes também preocupa
O crescimento acelerado de transtornos mentais entre crianças e adolescentes tem gerado grande preocupação entre especialistas da área. Somente no Caps Infantojuvenil, são 3,2 mil pacientes, 1 mil a mais do que em 2017. E, hoje, estão em tratamento até mesmo crianças a partir de 8 anos de idade.
Chefe da unidade, o psicólogo Daniel Sanches aponta que o fenômeno é multifatorial, mas, entre as causas mais recentes, está o acesso irrestrito e não monitorado a todo tipo de informação em plataformas digitais. "Muitos jovens ficam expostos a conteúdos relacionados à morte, violência, suicídio. Isso pode dificultar a manutenção da saúde mental como um todo", aponta.
Associados a isso, os quadros de transtornos mentais estão, muitas vezes, vinculados a condições de vida desfavoráveis, relacionadas à violência e negligência dentro da escola ou na família. Segundo Sanches, os problemas mais comumente detectados são quadros de ansiedade, depressão e ideações suicidas, que levam a alteração de hábitos alimentares e no sono, prejuízos no desempenho escolar e nos relacionamentos em geral.
"E, quando a comunicação com familiares ou figuras de apoio fica prejudicada, o problema pode ficar ainda maior", cita, acrescentando que o volume de adolescentes que se automutilam também têm crescido na cidade.
Da mesma forma, a quantidade de pacientes atendidos no Caps Álcool e Drogas Infantojuvenil por dependência química também teve alta significativa. Em dois anos, o volume mais que dobrou, saltando de 312 para 724 crianças e adolescentes em 2019.