Tribuna do Leitor

A competição e a frustração

Roberto Barbieri
| Tempo de leitura: 2 min

A natureza, através de suas leis "naturais", ensina que no sistema de vida prevalece o mais forte, o mais dotado, o melhor qualificado. Isto em todas as formas de vida, como os vegetais, os animais ditos irracionais. Cria-se uma competição acirrada, não só entre espécies diferentes, mas principalmente na mesma espécie, onde em todas as formas ocorrem digladios para se sobressair e suplantar o próximo.

Alguns ganham, a maioria perde e com certeza neste sistema natural ocorrem friamente mais perdas e frustrações do que os poucos sentimentos de ganhadores e vitoriosos. Evidentemente, ou melhor, provavelmente, não sobram estes sentimentos no mundo vegetal, onde um pé de alface mais bem-sucedido, maior e mais bonito, não causa transtornos às sementes que não vingaram ou mesmo aos pés de alface ao lado sem tantos atributos.

Já nos animais, o "bicho começa a pegar". Em grande maioria das aglutinações animais, aparecem as figuras da liderança, dos dominadores, muitas vezes conseguidas com o uso da sua maior força, envergadura e capacidade de se impor sobre os demais.

Assim vemos nas matilhas, manadas, rebanhos, bandos, alcateias, onde os competidores dominantes exercem amplo poder sobre os demais, com direito ao melhor pedaço da comida ou à preferência no acasalamento. Os que perderam a competição se mantêm submissos, com os rabos entre as pernas e, por que não, remoendo sua frustração diante da sua impossibilidade de estar no patamar de cima, se submetendo aos mandos e desmandos, babando silenciosos ao ver as benesses conseguidas pelos ganhadores dos "troféus". As leis naturais são frias, impessoais, amorais e sem senso de justiça, apenas buscando a seleção que esteja mais apta a manter a sequência da vida.

Esperava-se que o homem inteligente que é, racional e com uso do sistema de consciência, de conhecimento, que já modificou tantas vezes a natureza e continua domando boa parte das leis naturais, pudesse quebrar este paradigma. Entretanto, o que vemos é justamente o contrário, vemos a busca maior da competição entre si, o estímulo à busca da superação do indivíduo em relação aos demais. Vemos isto nos vestibulares, nas escolas, nas entrevistas de empregos, nas empresas, na valorização até por escala de notas, nos sistemas de eleição da malfadada e ainda insubstituível democracia, nos inúmeros jogos criados no mundo todo para competir e bater recordes, nos concursos (até de beleza), sem falar nas guerras e disputas mais diretas. O caráter predatório entre a espécie é na realidade potencializado pelo sistema criado em todos os setores, muitas vezes de forma mais destrutiva do que construtiva.

Poucos na sociedade humana continuam ganhando, e maioria perdedora, tal como numa alcateia, é sobrepujada e tem que se contentar a colocar o rabo entre as pernas e curtir a sua frustração, pois não cabem dois corpos no mesmo espaço, também lei natural.

Tudo isto talvez seja um prenúncio que este tipo de sociedade animal, apesar de todos os recursos tecnológicos, poderá provocar de fato sua autoextinção. Isto se as leis naturais novamente não derem um jeito antes.

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