Articulistas

Gente digitalizada

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Eu que sempre fui zen, beira de rio, cochilo à sombra, chinelos e cachoeiras... Eu que vivi num mundo que girava como carrossel. Telefone era só telefone, homem, só homem e mulher, só mulher... Eu que resolvia todos os meus problemas falando com gente de carne e osso... Agora, emputecido, sou obrigado a "conversar" com vozes tecnologicamente programadas. A droga é que sou um analfadigital e me embanano todo quando a robozinha começa o interrogatório: o Cpf, o Rg, o Cnpj, o Cep, a senha, o código de acesso, o código de segurança, o e-mail, o número do recibo, o certificado digital, a merda da captcha... Ela me vira do avesso, me faz de gato e sapato e, no ato, me enche de bronca e pavor.

A gente é enciclopédia? Pelo amor de Deus, apaga isso! "Enciclopédia" é coisa do tempo em que linguiça amarrava cachorro, não amarra mais. A robozinha ainda tem o desplante de me perguntar se não sou um robô. Robô é a mãe! Depois, me larga pendurado ao telefone com aquela musiquinha sem fim. Depois, claro, a ligação cai. A vontade é mandar essa robozinha para a p... Quer me mandar pra ponte que ruiu? Disque 1. Quer xingar a minha mãe? Disque 2. Quer me mandar pro inferno? Pode me mandar, babacão, tô me lixando pra você!

Por que a voz digital tem que ser feminina? Já não bastam a da mulher e a da sogra? Fui perguntar ao Google. O sabetudo me disse que, em momentos de impaciência, o melhor é a doce voz da mulher. Afetiva, sensual e, sobretudo, maternal. Faz sentido. Num momento assim, a gente quer mesmo é a mãe para sumir embaixo da saia dela.

Tudo ganância do capitalismo. O sistema grava a voz da moça e, depois, despede a moça. Do outro lado do telefone, não tem mais gente, só robôs. Por isso, a robozinha vai ditando e a gente vai fazendo. E aí fazemos o serviço de graça para essa gente endinheirada. É a esperteza do autosserviço, lucro total. Há lojas em que você, sozinho, compra, embrulha e paga. No aeroporto, o check in e as malas ficam por nossa conta. No metrô, o bilheteiro também foi despedido; num touch, compramos a passagem. A máquina nos vende o sabão e o amaciante e, depois, avisa: vai lavar a roupa, cara! Temos robôs, de todos os tipos: pizzaiolos, cozinheiros, músicos, anestesiologistas e até bonecas high tech... Bem, esse é o caso do cara carente.

Por falar nisso, conheci a Bia, a moça artificialmente inteligente do Bradesco. Deus meu, o ser humano está sendo jogado no lixo! Isso vai dar merda! Ah, vai!

Comentários

Comentários