Tribuna do Leitor

Cores da primavera

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

Uma de minhas estações do ano preferidas, a primavera, que começa amanhã, é uma festa. Embora nem sempre venha com as temperaturas amenas que a tornariam muito melhor, é um período repleto de beleza e poesia visual. Mesmo em uma cidade grande e cinza como São Paulo, há uma grande variedade de flores que se revelam em copas de grandes árvores, em moitas ou mesmo em pequeno vasos.

Os ipês são um espetáculo à parte. Espalhados em muitas cidades e estradas, parecem buquês em escala gigante, explodindo em cores e formas. Quando eu morava no Interior, na cidade de Araras, ficava maravilhada por estar em uma avenida lindamente arborizada por ipês cor-de-rosa. Quando floresciam, todos juntos, forravam o pavimento com as flores que iam caindo e enfeitavam o céu com as que nasciam nas primeiras horas da manhã.

Aqui em Sampa continuo cercada por essas árvores magníficas, mas agora são os amarelos, em sua maioria, e alguns brancos. Na frente de casa mesmo temos uma árvore vovozinha. Pequena e mirrada, tem mais de 50 anos e em algumas primaveras temos um volume um pouco maior de flores, mas já meio ranzinza, resolve não mostrar suas cores e permanece dormente, como nesse ano, por sinal. Fico um pouco frustrada, porque tendo um ipê para chamar de meu, não posso contemplá-lo em toda sua glória.

No quarteirão de casa, por outro lado, há um ipê branco que esnoba suas amigas árvores. Trata-se de uma planta já muito bem formada, com copa ampla e imponente. Durante a primavera, ele floresce de duas a três vezes, radiante, ficando parecido com algodão-doce ou com uma pequena nuvem amarrada por um cabo de madeira. Impossível lhe ser indiferente e, como se soubesse disso, deita as flores pelo chão, formando um suntuoso e alvo tapete. É muito comum ver pessoas tirando fotos desse ser maravilhoso ipê, por certo no desejo de eternizar o que dura tão pouco.

Hoje, dia em que escrevo esse texto, ocorreu um fenômeno que me parece curioso. Como se tivessem combinado, dezenas de ipês brancos amanheceram completos em flor. Como donzelas vestidas de noiva, as árvores extrapolaram, com flores tão brancas que pareciam glaciais. Algo impossível de ignorar, de não admirar. Há alguns meses descobri que há ipês verdes e fiquei encantada com isso. Somente os imaginava rosas, roxos, amarelos e brancos e desconhecia a existência de outras variações. A paleta de cores da natureza é muito maior e melhor do que podemos supor e ela sempre pode nos surpreender positivamente.

Penso que os ipês são, além de belos, um exemplo de que é preciso ter olhos e sensibilidade para amar as coisas pelo tempo no qual existem e que não importa o quanto se seja belo, um dia tudo se vai. Passadas as flores, os ipês são como simples árvores, destituídas de algum outro traço de especial beleza. Essas árvores nos ensinam que não há tempo a perder, pois as flores não estarão sempre a esperar pelo nosso olhar, que a vida corre a nossa revelia. Ainda nos ensinam que é preciso ter paciência, que antes de nos vestirmos de flores, precisamos perder todas as folhas e esperarmos a dádiva dos botões.

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